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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Filme do Dia: A Noiva Estava de Preto (1967), François Truffaut


A Noiva Estava de Preto (La Mariée était en noir, França/Itália, 1967). Direção:  François Truffaut. Rot. Adaptado: Jean-Louis Richard &  François Truffaut, baseado no romance de Cornell Woolrich. Fotografia: Raoul Coutard. Música: Bernard Hermann. Montagem: Claudine Bouché. Dir. de arte: Pierre Guffroy. Com: Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy, Charles Denner, Claude Rich, Michael Lonsdale, Daniel Boulanger, Alexandra Stewart, Sylvine Delannoy.
     Julie Kohler (Moreau) vinga-se de todos os homens que se encontravam reunidos no apartamento de onde veio o tiro que matou seu marido, na saída da igreja, logo após a cerimônia. O primeiro é Bliss (Rich), um conquistador que acredita que seduziu-a, e que é morto da varanda de seu apartamento, em plena comemoração do casamento. Para o segundo, um frustrado homem de meia-idade,  o Sr. Coral (Bouquet), Julie manda um ingresso para um concerto de música erudita. Na noite seguinte, envenena-o com a bebida que trouxera. O terceiro, Morane (Lonsdale), um bem sucedido burguês que pretende enveredar pela carreira política, é morto por asfixia, trancado num pequeno armário de sua própria casa. O quarto, Delvaux (Boulanger), escroque no negócio de carros, é salvo no último momento, pela intervenção da polícia, que o prende. Enquanto Julie anota em seu caderno uma interrogação sobre Delvaux, parte ao encontro de Fergus (Denner), artista plástico, boêmio e inverterado mulherengo, a quem assassina enquanto posa de Diana, a caçadora, com a própria flecha com que era retratada. Porém um amigo em comum de Bliss e Fergus passa a desconfiar de Julie e, no dia do enterro, a descobre no funeral. Presa, a polícia não descobre a lógica que motivou seus crimes e Julie consegue cumprir a sua meta e matar Delvaux esfaqueado, no momento em que vai servir a comida.
Essa adaptação de Wollrich, autor fonte para clássicos do cinema noir e suspense americanos, particularmente para um dos ídolos de Truffaut, Hitchcock (que adaptou Janela Indiscreta), é utilizado ao serviço do universo particular do cineasta francês. Porém, o resultado final é menos instigante que outra adaptação para um universo autoral,  empreendida por Fassbinder, em Martha. Falta um pouco mais do sutil senso de comicidade e absurdo usualmente trabalhados por Truffaut – que retornaria ao tema, de uma forma galhofa, menos pretensiosa e mais divertida com Uma Jovem Tão Bela Como Eu. Inicialmente pode-se acreditar que Julie pode ser apenas uma barba azul de saias. E até o primeiro crime, uma expectativa de suspense é motivada, porém logo se arrefece, quando é percebida a lógica da vingança e acompanhamos, com completa ausência de sentimentos, os planos da assassina. Mesmo que, em certos momentos, como tipicamente ocorre no estilo noir, o inesperado possa ser atraente, como naquele do primeiro crime e logo quando descobrimos o motivo que Julie decidiu ser descoberta (quando percebemos Delvaux na prisão, e que bom poderia ser a cena final do filme), o resultado geral é tedioso.  Algumas cenas que rompem com a obssessividade da trama, como a echarpe de Kohler que se desprende do galho, motivo para que empurrasse Bliss, sendo levada pelo vento a sobrevoar a cidade, enquanto sua dona se encontra em um avião, a caminho da próxima vítima e a do confessionário, onde Julie revela que o padre, ainda que involuntariamente, havia lhe dado forças para continuar com sua empreitada, acabam sendo revigorantes. Em sua homenagem enviesada ao mestre do suspense, Truffaut também teve a colaboração de Bernard Hermann, compositor de muitas das trilhas de Hitchcock. Truffaut, que voltaria a adaptar Wollrich com A Sereia do Mississipi (1969), foi bem mais sucedido com outra tentativa de unir o cinema autoral a uma fonte literária noir, com Atirem no Pianista (1962), também tendo como protagonista um Kohler. Denner, que como em outros filmes do cineasta, representa um obcecado por mulheres, traduz muito da misoginia e das obsessões do próprio cineasta. Última colaboração de Truffaut com o legendário cinegrafista da Nouvelle Vague Coultard, com quem teve sérias desavenças ao longo deste, que era o filme pelo qual sentia menos apreço. Como As 7 Máscaras da Morte, cola sua trama na obsessão de uma assassina serial voltada para um ressentimento específico. Dino de Laurentiis Cinematografica/Les Films du Carrosse/Les Productions Artistes Associés. 107 minutos.

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