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sexta-feira, 7 de março de 2014

Filme do Dia: Entre os Muros da Escola (2008), Laurent Cantet

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008). Direção: Laurent Cantet. Rot. Adaptaado: François Bégadeau, Robin Campillo & Laurent Cantet, baseado em livro do primeiro. Fotografia: Pierre Milon. Montagem: Robin Campillo. Com: François Bégaudeau, Sandra Esmeralda Ouertani, Souleymane Franck Keita, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaidja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucoure, Arthur Fogel, Damien Gomes, Wei Wei Huang.
François Marin (Bégaudeau) é professor em escola secundarista francesa que vê a situação de tensão crescer dia a dia em sua sala. A gota d´água se dá no dia em que ele chama duas alunas de vagabundas, pelo comportamento abusado que sobretudo uma delas, Esmeralda (Ouertani), havia apresentado em sala. Tal atitude acaba suscitando uma reação descontrolada de um aluno problemático em sala, Souleymane (Keita) que, contrariamente aos desejos do próprio François, acaba sendo levado ao Conselho de Classe e sendo expulso da instituição.
O que há de mais admirável nesse filme de Cantet é o seu nível de realismo, ancorado na recusa de uma dramaticidade convencional, seja no uso de cacoetes narrativos típicos, como entonação dramática, música ou expectativas de ação ou reação dos personagens. Ao mesmo tempo que se é seduzido pelos dramas éticos e morais de seu protagonista, vivido pelo autor do romance do qual o filme é adaptado,  tão pouco se deixa de perceber que os alunos tem seu quinhão de direito de se encontrarem revoltados contra um sistema opressivo e pouco sensível a sua própria realidade, advindos em sua maior parte de culturas distintas. A contenção dramática, inclusive no momento do clímax da tensão, assim como a utilização de jovens vivendo a si próprios, e ainda  a excepcional personificação de Bégaudeau vivendo seu próprio alter-ego, fenomenal para quem nunca antes havia atuado no cinema, associado a ausência de soluções dramáticas fáceis, como a da esperada revolta dos alunos após o episódio de conflito maior e a subseqüente expulsão do garoto, são pontos a se destacar. O filme, com motivos temáticos semelhantes, apresenta uma leitura diametralmente oposta a de Ao Mestre, com Carinho. Sente-se inclusive a individualidade bem marcada da maior parte dos alunos – algo talvez um pouco menos evidente no corpo docente, que tende a servir como oposição ao protagonista que sempre pretende ir além do script e da estrita legalidade. Essa individualidade será fundamental, por exemplo, para que os alunos aparentemente acabem voltando a encarnar seus papéis de sempre na relação existente previamente ao conflito central. O filme é igualmente uma boa demonstração de que os desafios do multiculturalismo são muito mais complexos, quando observados a partir de uma realidade efetiva, do que as meras abstrações de um discurso politicamente correto podem supor. Palma de Ouro no Festival de Cannes. Haut et Court/Canal +/CNC/France 2 Cinéma/Memento Films Prod. 128 minutos.


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