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sábado, 31 de março de 2018

Filme do Dia: Tartufo (1925), F.W. Murnau


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Tartufo (Herr Tartüff, Alemanha, 1925). Direção: F.W. Murnau. Rot. Adaptado: Carl Mayer, baseado em peça de Molière. Música: Guiseppe Becce. Fotografia: Karl Freund. Dir. de arte e Figurinos: Karl Herlth & Walter Röhrig. Com: Werner Krauss, Emil Jannings, Lil Dagover, André Mattoni, Rosa Valenti, Hermann Picha, Lucie Höflich, Camilla Horn.
Criada (Valenti) envenena aos poucos seu velho patrão (Picha) solitário, fingindo ser sua melhor amiga para se apossar de seus bens. Quando o neto (Mattoni) do patrão vai visitá-lo é expulso de casa. Ele logo percebe a influência da criada e retorna, disfarçado de projecionista ambulante, convencendo a criada a exibir um filme na residência de seu avô. O filme narra a história de um rico homem, Orgon (Krauss), que é vítima da hipocrisia travestida de moralidade por Tartufo (Jennings), seu novo guru, para desespero de sua mulher, Elmire (Dagover), que procura afastar a influência de Tartufo sobre o marido a todo custo. Após simular uma cena de sedução diante do marido, que não ocorre de todo, pois Tartufo percebe o marido observando a cena, refletido em um bule, Elmire, com o auxílio da criada Dorine (Hölflich) consegue que o marido flagre a verdadeira personalidade de Tartufo se embebedando e tentando seduzi-la. Desmascarando a si próprio, após a sessão, o neto aponta a figura da criada como um exemplar de Tartufo, revelando sua estratégia malévola e a expulsando de casa.
Essa, provavelmente a mais famosa transposição de Molière para o cinema, faz uma adaptação bastante original, ao menos em termos formais, do próprio cinema na sua narrativa dentro da narrativa, como elemento de “revelação moral”, no sentido mais puramente grriffitheano (sobretudo seu A Drunkard’s Reformation, de 1909, que fazia uso semelhante de uma narrativa teatral). As referências ao próprio universo voyeurístico da recepção de um filme são evocadas a todo momento no filme, fazendo uso das habituais cenas em que os personagens espiam os outros, para não falar da mais direta interação do neto que ao ser expulso inicialmente pelo avô, dirige-se diretamente aos espectadores afirmando que retornará para desmascarar a criada. O fato do neto ser ator e fazer uso de artimanhas das artes cênicas (teatro, cinema), apenas explicita, talvez de modo um tanto demasiado, a arte enquanto possibilidade de desmascaramento do real (algo que voltaria a ser trabalhado, de forma mais sofisticada e ambígua, em diversos filmes de Bergman, notadamente O Rosto). O resultado final, no entanto, extrai uma boa dose de magia de seu tom abertamente fabular, com destaque para a notável interpretação de Jannings, encarnando uma figura tão escrachadamente demoníaca quanto seu Mefisto no filme seguinte de Murnau, Fausto, do ano seguinte. Sua fisionomia de bufão  ensandecido afundando em meio a um travesseiro é de um grafrismo evocativo do universo das histórias em quadrinhos. Dagover é a estrela de O Gabinete do Dr. Caligari (1919), clássico do cinema alemão, que também faz uso de uma narrativa dentro de outra. Existem versões mais longas, inclusive uma com 74 minutos. UFA. 63 minutos.