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sexta-feira, 9 de março de 2018

Filme do Dia: Arroz Amargo (1949), Giuseppe De Santis

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Arroz Amargo (Riso Amaro, Itália, 1949). Direção: Giuseppe De Santis. Rot. Original: Corrado Alvaro, Carlo Lizzani, Carlo Musso, Ivo Perilli, Giani Puccini & Giuseppe De Santis. Fotografia: Otello Martelli. Música: Goffredo Petrassi. Montagem: Gabriele Varriale. Dir. de arte: Carlo Egidi. Figurinos: Anna Gobbi. Com: Vittorio Gassman, Doris Dowling, Silvana Mangano, Raf Vallone, Checco Rissone, Nico Pepe, Adriana Sivieri, Lia Corelli.
Quando um grupo de mulheres parte para a colheita sazonal do arroz, o meliante e foragido da polícia Walter (Gassman) consegue despistar à polícia e fugir com sua comparsa e amante, Francesca (Dowling), com um colar roubado. A ação dos dois, no entanto é observada por Silvana (Mangano), que se aproxima de Franscesca e chega a surrupiar o seu colar. O soldado Marco (Vallone), interessado pelo amor de Silvana, a repreende por se intrometer na vida de Francesca. Silvana lhe devolve o colar e se torna próxima de Franscesca que, no entanto, percebe a atração sexual que Walter exerce sobre ela. Tornados amantes, Silvana entra no plano de Walter e seus comparsas de roubarem toda a produção de arroz do armazém, enquanto todos se encontram dispersos numa festa que coroa Silvana como rainha do arroz. Eles também abrem os diques para desviar a atenção do grupo. Francesca, no entanto, consciente da ação planejada pelo ex-amante, aproxima-se da dupla com o soldado Marco. No confronto, Walter é morto por Silvana, que posteriormente se suicida.

Embora seja considerado como uma referência do Neorrealismo, o filme acaba explicitando o quanto boa parte da produção que era considerada – ou ao menos assim pretendia ser – como neorrealista já se distanciava bastante da primeira leva de filmes, em vários aspectos. Sobretudo ao utilizar de um certo “ambiente social”, evocativo do movimento, porém apenas como pano de fundo para uma narrativa bem mais convencionalmente clássica e aproximada de um cinema de gênero de matriz hollywoodiana, incluindo alguns clichês desse de forma bem marcada, tal como toda a sequencia inicial relacionada ao roubo ou ainda o “quarteto” mais que triângulo amoroso. Assim como uma moralidade não menos tradicional e que mais que flerta com o maniqueísmo, mesmo apresentando uma situação de ambiguidade com relação à personagem de Silvana, vivida por sua homônima que ganharia o estrelato a partir desse filme. Ou uma “virada” por parte de uma meliante que descobre sua honestidade a partir do momento que passa a exercer a dura labuta dos campos de colheita. Ou seja, é nas situações limítrofes que se testa o caráter de alguém. No caso dos personagens masculinos não existe qualquer dubiedade ou inversão de postura moral. E enquanto o vilão extremamente sexuado de Gassman não move uma palha, o modesto herói de Vallone já viveu uma década no quartel, motivo para que Walter afirme jocosamente que já chegava até Silvana “murcho". Não falta evidentemente o já adivinhado final feliz com o novo casal que já se antecipa de bem antes. Visualmente lustroso, com longos e virtuosos  planos-sequencia tal como o do início ou de outros que abarcam mais de uma situação, algo habitualmente efetuado pela montagem e o uso de grua, o filme bem poderia, sob esse aspecto, ser comparado ao clássico Ladrões de Bicicleta. Porém, a excessiva sujeição ao drama convencional, à sexualidade e a uma interpretação demasiado estilizada, acentuada por sua fotografia, presente mais que nunca no momento em que o casal Marco e Silvana se deita sobre o feno, assim como a ausência de qualquer problematização social minimamente densa o tornam anos-luz distante da proposta do filme de De Sica e mais próxima das escolhas do próprio De Santis desde sua estréia (Trágica Perseguição). Lux Film. 104 minutos.

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