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#ELENÃO

domingo, 4 de março de 2018

Filme do Dia: L'Uomo dalla Croce (1943), Roberto Rossellini




L’Uomo dalla Croce (Itália, 1943). Direção: Roberto Rossellini. Rot. Original: Alberto Consiglio, Giovanni D’Alicandro, Asvero Gravelli & Roberto Rossellini sob argumento de Graveli. Fotografia: Guglielmo Lombardi. Música: Renzo Rossellini. Montagem: Eraldo Da Roma. Dir. de arte: Gastone Medin. Com: Alberto Tavazzi, Roswita Schmidt, Attilio Dottesio, Doris Hild, Zoia Weneda, Antonio Marietti, Piero Pastore, Aldo Capacci, Franco Castellani, Gualtiero Isnenghi.
Na frente de batalha soviética, um capelão italiano (Tavazzi) se recusa a partir com seu pelotão, para auxiliar um soldado (Dottesio) com concusão. Ele é capturado pelos soviéitcos, porém em meio a batalha consegue fugir e se refugia em uma casa em meio ao fogo cruzado do exército soviético e italiano. Lá ajuda um soldado russo ferido no rosto, Beyrov (Pastore), uma mulher que acaba de ter o filho, um soldado antibolchevique (Isnengui). Na casa também se encontram camponeses civis. Irina (Schmidt), miliciana comunista, companheira de Serguei (Marietti), planeja uma sublevação, conseguindo se apossar de alguns armamentos. Porém, quando pretende partir para o ataque,  descobre que o homem ferido no rosto é arqui-rival dela e de Serguei, a quem mata. Irina se descontrola, mas é consolada pelo capelão. Ela conta sobre seu triste passado. A casa onde se encontram abrigados é atingida pelos bombardeios. Em meio a confusão, Beyrov tenta assassinar Irina, que conta com o apoio do capelão para conseguir escapar. Beyrov, no entanto, é atingido. Tentando consolá-lo em seus últimos momentos, o capelão também é ferido e morto.

Uma lógica quase inversa de Un Pilota Ritorna (1942), é a que parece se encontrar presente nesse que é o último filme da trilogia que o realizador dirigiu sobre o exército como filmes direcionados a propaganda de guerra. Inversa no sentido de que aqui é o início que parece mais despojado de elementos dramáticos mais convencionais, apresentando um grupo de soldados em situação tão informal que dificilmente se associaria a imagem deles a dos combatentes heróicos do filme anterior, sendo o auge dessa informalidade o momento no qual um dos soldados faz uma mímica imitando a postura de uma galinha a por os ovos. Porém, a partir do momento em que o capelão se destaca cada vez mais na narrativa – a sinopse do enredo não deixa de ser enganosa, já que de fato em seu início, e mesmo com menos intensidade depois, é uma preocupação com um grupo bem mais amplo de pessoas que se faz, como se torna comum na obra do realizador  – torna-se cada vez mais patente igualmente que é com ele que a moral do filme se identifica. Ele é o único personagem que consegue tratar de forma humana e amparar todos os envolvidos. Porém aqui tal dimensão parece demasiado chapada, mesmo quando comparada ao padre que igualmente será mártir em Roma: Cidade Aberta, e demasiado abstraída das condições concretas do mundo. Se no filme posterior é igualmente a fé do padre que sustenta todo o seu martírio, ele está igualmente engajado numa missão prática contra os opressores nazistas. Aqui, o grau com que o capelão, sugestivamente conhecido apenas por sua função e não por um nome próprio, é a encarnação abstrata dos valores mais caros ao cristianismo torna-o demasiado patético. E se é bem verdade que Rossellini consegue, como habitual, fugir da mera vilanização do rival – a personagem de Irina, que mais se aproximaria inicialmente da vilã, masculinizada e antipática, apresenta todos os seus sentimentos de forma mais extensa que qualquer outro no filme – e deslocar para a margem qualquer mensagem mais explícita, como a invocada sobre o ateísmo comunista e a ideologia prevalecente do filme ser a de um cristianismo humanista que transcende relativamente as barreiras entre os povos em conflito quando observados em contato próximo, ele acaba  o fazendo de modo mais sentimental e datado que Un Pilota Ritorna. Continentalcine. 72 minutos.