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#ELENÃO

sábado, 16 de dezembro de 2017

Filme do Dia: Joaquim (2017), Marcelo Gomes


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Joaquim (Brasil, 2017). Direção e Rot.Original: Marcelo Gomes. Fotografia: Pierre de Kerchove. Montagem: Eduardo Chatagnier. Dir. de arte: Marcos Pedroso. Figurinos: Ro Nascimento. Com: Júlio Machado, Rômulo Braga, Welket Bungué, Isabel Zuaa,  Nuno Lopes, Diogo Dória, Eduardo Moreira, Miguel Pinheiro, Karay Rya Pua.
Joaquim (Machado) é um alferes que vive observando os seus companheiros de trabalho engajados em processo de corrupção daqueles que exploram as minas ilegalmente. Seu superior Manoel (Pinheiro), explora sexualmente a negra por quem Joaquim tem apreço e bastante desejo, Nega (Zuaa). Ele tenta compra-la, sem sucesso. Manoel o envia para uma expedição até uma região bastante inóspita na companhia do recém-chegado de Portugal e completamente inexperiente Matias (Lopes), do assistente Januário (Braga), do índio Inhambupé (Pua), que conhece bem a região e do negro João (Bungué). Quando se encontram de partida ficam sabendo que Manoel foi morto por Nega, que fugiu. Após muitas vicissitudes, e a desistência de Januário e de Matias, que abandonam o grupo, Joaquim persiste e encontra ouro, porém é capturado por um grupo de quilimbolas, sendo posteriormente liberto por Nega. Ao retornar, é apresentado pelo padre a um grupo de sediciosos da elite.

O filme consegue, de uma maneira geral, um feliz equilíbrio entre um esboço narrativo mínimo – e descentrado de qualquer eulogia mais piegas, caricata ou clichê com relação a seu personagem – e uma alusão, ainda que distante e oblíqua, a um cinema de aventura, sendo nesse sentido menos pretensioso e afetado que um filme como Jauja. É impossível não se formular comparações com outra abordagem da personagem, Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade, também um comentário sobre o momento em que foi produzido. Aqui, ao mesmo tempo que um veio explora com sutileza as permanências das relações de exploração, de dominação e que envolvem igualmente questões étnicas e de gênero, mais tipicamente afinadas ao discurso contemporâneo em que foi produzido que o filme cinemanovista, por outro lado existem momentos de explícita alusão paródica aos Estados Unidos (na observação de Joaquim sobre a igualdade utópica que observa no país que, prevê ele, jamais pretenderá dominar outras nações) ou que não deixam de respingar para o momento político contemporâneo no Brasil (como quando o protagonista comenta, desgostoso, sobre os mais corruptos ascenderem na hierarquia, enquanto os mais corretos vão progressivamente ficando à margem). Algumas vezes essa obviedade, como sobretudo no caso do comentário sobre a revolução americana, funciona melhor, inclusive como efeito de distanciamento do que é narrado e evidente piscadela marota para o espectador que outros, em que se pretende mais sério, como é o caso da desnecessária alusão à resistência do movimento negro-quilombola ou ao momento de canto e dança que as duas etnias marginais do processo de elaboração cultural do país – o negro e o índio – se unem em um entrosamento, ainda que aparentemente sem compreensão mútua  e literal do que é cantado. Ou, talvez de forma um pouco mais interessante mas nem por isso menos equemática,  da ingenuidade pueril do afã revolucionário de Joaquim se refastelando com a generosidade de carne em um banquete ao lado da aristocracia completamente interessada em seus próprios benefícios e que não pagará, certamente, com suas próprias cabeças, pelo levante que se seguirá, numa alusão que certamente tem como pretensões se irradiar para o restante da história do país, incluindo o momento contemporâneo em que foi rodado. Ou seja, como desde determinado momento do Cinema Novo, posterior ao golpe militar, a explicitação dos desejos de classes, ainda quando sob a rubrica de uma pretensa homogeneidade progressista.   A relação com a figura feminina se esboça em um jogo mais complexo,  igualmente herdeiro da postura irônica com relação aos mitos românticos do Cinema Novo, presentes na relação entre a índia e o homem branco de Como Era Gostoso o Meu Francês, em que submissão, achaque, afeto, inspiração, marginalidade e autoafirmação não exatamente se confundem, mas emergem com maior nitidez diante de cada contexto específico de interesses. Iniciado com um prólogo em que diante da imagem da cabeça decepada do líder se escuta sua própria voz comentando sobre o destino trágico que lhe espera, o filme consciosamente se põe a todo momento qual o recorte que pretende efetuar, não apenas observando o seu protagonista como uma figura de sua época, menos heroica mas certamente mais interessante, como extirpando de si justamente aquilo que mais apelaria a uma narrativa dramática de cunho mais convencional, seja o assassinato de Manoel ou – e principalmente – o momento da conjuração propriamente dita, ainda que sob o peso de sua descrição do cotidiano antes da missão ao sertão correr o risco de uma não menos consciente morosidade. Chama a atenção, mais que tudo, dentro do panorama do cinema brasileiro do momento em que foi produzido, não apenas essa incursão pela história, algo por si só já de extrema raridade, como igualmente marcada pelo meio caminho entre a pesquisa e elaborações idiossincráticas sobre as posturas e modos de agir de seus envolvidos, mesmo que sob o risco de ocasionalmente não ir além de algumas trivialidades como a troça dos brasileiros sobre o desajeitado português que os acompanha. Outro mérito é jamais se render ao estereótipo ou polarização maniqueísta em relação aos personagens que apresenta, algo mais sugerido que felizmente concretizado na figura do próprio Matias. Rec Prod. Associados Lmtd/Ukbar Filmes para Imovision. 97 minutos.