CONTRA O GOLPE CIVIL-MIDIÁTICO-JUDICIÁRIO EM CURSO E PELO RETORNO DA DEMOCRACIA

sábado, 30 de dezembro de 2017

Filme do Dia: Sombra do Pavor (1943), Henri-Georges Clouzot

Resultado de imagem

Sombra do Pavor (Le Corbeau, França, 1943). Direção: Henri Georges-Clouzot. Rot. Original: Louis Chavance. Fotografia: Nicolas Hayer. Música: Tony Aubin. Montagem: Marguerite Beaugé. Cenografia: André Andrejew & Herman Wann. Com: Pierre Fresnay, Ginette Leclerc, Micheline Francey, Héléna Manson, Jeanne Fusier-Gir, Sylvie, Liliane Maigné, Pierre Larquey, Roger Blin.
Vila francesa nunca mais se torna a mesma depois que uma série de cartas anônimas, assinadas com o nome de O Corvo, passam a ofender e tornar públicas as intimidades de seus habitantes. A primeira vítima é o médico local, Rémy Germain (Fresnay), acusado de praticar abortos. Um dos casos mais cruéis, é o do paciente terminal (Blin), a quem é revelada a sua sorte e se suicida. Todas as suspeitas recaem sobre Marie Corbin (Manson), a seca enfermeira que é perseguida e presa. As cartas são suspensas, fazendo crer que realmente ela era a autora, até o dia em que um novo folheto cai no chão da igreja, levando os policiais a acreditar que o autor é uma dentre as 18 pessoas que se encontravam no seu piso superior. Entre outros suspeitos se encontram, além do próprio Rémy, sua possessiva amante Denise (Leclerc), o psiquiatra Michel Vorzet (Lerquay) e sua esposa Laura (Francey), dentre outros.

Primeiro filme a chamar atenção para o talento de Clouzot, destaca-se pela soberba descrição inicial da vila provinciana ameaçada pela revelação de seus segredos e pequenas mesquinhezas, extreamente auxiliada pelo notável senso de ritmo e direção de atores. Para efeitos comparativos, a vivacidade do filme de Clouzot torna o contemporâneo Os Visitantes da Noite, de Marcel Carné, algo como uma peça de museu. Nada da empáfia e do desejo de efetivar um “filme artístico” mascula essa obra curiosa, ao mesmo tempo produzida pelo estúdio alemão do regime de Vichy (assim como sua estréia como realizador, o que rendeu uma suspensão de dois anos a Clouzot após a Libertação) e censurada no ano seguinte pelo próprio regime, que deve ter se apercebido de seu evidente comentário sobre o próprio clima de paranoia e delação existente. Aliás, é essa sugestão alegórica de se pegar uma realidade provinciana de uma vila qualquer, como afirma a própria cartela inicial do filme, para se discutir o momento político contemporâneo que é uma das grandes atrações do filme, algo como um importante predecessor de filmes como A Fita Branca (2009), de Michael Haneke.  Dito isso, tampouco se pode perceber que todo o brilho da descrição inicial se torna, infelizmente, absorvido pelo modo obsessivo com que a trama parece se dirigir para possibilidades diversas da autoria das cartas, submergindo na banal investida dos filmes ou romances de detetive no estilo de Agatha Cristhie. É muito pouco diante do próprio modo amadurecido com que descreve as relações afetivas e os tipos peculiares, como se a guisa de transformar seu filme em um produto mais palatável e condizente com o que se esperava à época sua essência acabasse por se perder nesse desgastante jogo de gato-e-rato que ganha dimensões alucinatórias ao final. O filme toca numa série de questões que dificilmente seriam abordadas, sobretudo em seu conjunto, num filme americano do período, que vão de palavrões escritos a adultério, aborto, uso de drogas, suicídio e referências a sexualidades perversas. Não por acaso seria adaptado justamente por Preminger, um dos iconoclastas do cinema norte-americano da década seguinte, numa versão pouco conhecida intitulada  Cartas Venenosas (1951). Como era de se esperar, no entanto, tal adaptação se encontra longe de fazer referências ousadas da forma espontânea como aqui são feitas, sobretudo através da boca do charmoso psiquiatra Vorzet. Continental Films para Tobis. 92 minutos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário