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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Filme do Dia: A Noite Nupcial (1935), King Vidor

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A Noite Nupcial (The Wedding Night, EUA, 1935). Direção: King Vidor. Rot. Original: Edith Fitzegerald, baseado em argumento de Edwin H. Knopf. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Stuart Heisler. Dir. de arte: Richard Day. Figurinos: Omar Kiam. Com: Gary Cooper, Anna Sten, Ralph Bellamy, Helen Vinson, Sig Ruman, Esther Dale, Leonid Snegoff, Milla Davenport, Walter Brennan, Otto Yamaoka
Tony Barett (Cooper) é um escritor em Nova York que decide voltar a sua Connecticut natal buscando inspiração para seu novo romance. Sua mulher, Dora (Vinson), vai para Nova York, assim como o ajudante Taka (Yamaoka). Barrett sente-se cada vez mais envolvido por Manya Novak (Sten), descendente de uma rude família de poloneses, que mantém os seus hábitos tradicionais, como a escolha do noivo por arranjo, Fredrick (Bellamy). O que era inicialmente mera atração para Tony lhe inspira para compor a protagonista de seu novo romance, Sonya, assim como todo o enredo e Manya, inicialmente arredia aos encantos de Tony, é seduzida quando escuta ele contar sua história. Numa noite de nevasca intensa, o pai de Manya, Jan (Ruman), vai buscá-la na casa de Tony e decide que ela irá casar na próxima segunda. Enquanto isso, Dora retorna e fica a par das novidades. Disposto a se separar de Dora, Tony recebe a notícia do casamento de Manya como um golpe e vai até a comemoração. Desprezada pelo recém-noivo, Frederick, que acredita que ela se entregou a ele, Frederick decide se vingar de Tony. Manya tenta alertar Tony, mas em meio a briga dos dois é ferida mortalmente.

Vidor retorna ao tema do amour fou temperado por uma boa dose de atração por um Outro puro e libertador – que já havia demonstrado em Pássaro do Paraíso, ainda que aqui já demonstre um nível de complexificação psicológica que talvez o aproxime um pouco mais de seu melodrama clássico, Stella Dallas, realizado dois anos depois. A salvação de um entediado e sofisticado escritor de um círculo social refinado de Nova York será redescobrir a “espontaneidade” de uma vida sem maiores preocupações no campo, onde a natureza parece comandar até mesmo as relações sociais. Porém, se Tony se encanta pela ausência de malícia se sente constrangido com o outro lado da moeda de tal vida provinciana, a dos papéis sociais e de gênero muito bem delimitados, assim como hábitos que são quase que abertamente ridicularizados. Há, sem dúvida, uma forte carga de “ensinamento” civilizador no modo como Tony passa a agir e influenciar Manya, que passa a questionar os códigos morais da geração de seus pais, como que desejando abraçar de vez a sua identidade “americana”. Porém, talvez devido a um outro código moral que diz menos respeito a narrativa do filme do que o que regulava a indústria cinematográfica de então, o intento liberal de Tony terá seus limites e não chegará a se concretizar a não ser (tal como em OMorro dos Ventos Uivantes, igualmente fotografado por Toland e produzido pela mesma companhia alguns anos após) enquanto suspiro romântico tardio. Nesse sentido, a transcendência do amor aqui não possui a intensidade corpórea ou a criatividade estética de Jean Vigo, em L´Atalante, aproximando-se mais de semlhantes descrições em filmes anteriores seus como Aleluia! (1929). Sobra, evidentemente, para o lado mais frágil da balança, que nem possui mais as mesmas convicções tradicionais dos pais e avós, mas tampouco conseguiu ainda se firmar com segurança diante dos novos códigos “aprendidos” a tal grande custo e que acabarão lhe valendo a própria vida. E, para o virtuoso protagonista – afinal o filme faz questão de frisar que seu oportunismo ocorreu apenas no primeiro contato com Manya, logo seus sentimentos irão demonstrar-se os mais “autênticos possíveis” por mais doloroso e tedioso que possa parecer - ainda restará um ombro (e aqui sinceramente) amigo, tal como em As Chuvas de Ranchipur (1955), de Jean Negulesco. Aliás, essa contraposição clássica entre a espontaneidade de um mundo tradicional, ainda que oprimido x  cultura mais cosmopolita seria material para realizadores como Jean Negulesco operar em diversos filmes de intenso colorido e Cinemascope, tendo sempre a Europa Ocidental (não a Oriental, como aqui) como Outro. Cumpre indagar, se a cultura ocidental é tão mais liberta e democrática assim, por qual  motivo seus protagonistas estão buscando seus amores justamente nas sociedades ainda fortemente marcadas pela tradição? O argumento original de Knopf foi inspirado na relação entre Zelda e Scott Fitzgerald, amigos próximos do escritor. The Samuel Goldwyn Co. para United Artists. 88 minutos.

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