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domingo, 31 de dezembro de 2017

Filme do Dia: Fogo na Planície (1959), Kon Ichikawa

Fogo na Planície (Nobi, Japão, 1959). Direção: Kon Ichikawa. Rot. Adaptado: Natto Wada, baseado no romance de Shohei Ooka. Fotografia: Setsuo Kobayashi & Setsuo Shibata. Música: Yasushi Akutagawa. Montagem: Tatsuji Nakashizu. Dir. de arte: Atsuji Shibata. Com: Eiji Funakoshi, Osamu Takizawa, Mickey Curtis, Mantarô Ushio, Kyu Sazanaka, Yoshihiro Hamaguchi, Asao Sano, Masaya Tsukida.
Filipinas, 1945. Tamura (Funakoshi) é um soldado japonês  em um exército completamente destituído de qualquer apoio moral ou material, que possui como únicas opções se entregar ao exército americano ou enfrentá-los em uma luta suicida. Diagnosticado como tuberculoso, ele passa a enfrentar a rejeição dos colegas e se depara com inúmeras situações desesperantes e aterradores em sua jornada.  Entre os sobreviventes, alguns enlouquecem, outros passam a consumir carne humana. Tamura procura resistir preservando o máximo possível a sua dignidade.

Ichikawa constrói um dos retratos mais cruéis da guerra já vistos no cinema e algo que deve ter provocado espécie à época no Japão, ao retratar muitos de seus militares em situações limítrofes. Uma leitura mais atenta do mesmo, no entanto, demonstrará que o cineasta trabalha mais em cima de questões morais e universais do que propriamente faz um retrospecto de qualquer batalha específica sob uma perspectiva eminentemente realista ou nacional. Não que as situações vividas pelos personagens não sejam realistas, porém somente ao final se fica a par de onde se sucederam as ações e a presença das forças americanas torna-se um elemento de fundo. O foco central do filme são as adversidades enfrentadas em situações de pressão extrema em que a fome, a traição e a morte espreitam a todo momento. A leitura empregada por Ichikawa dos eventos é a mais seca possível e longe de qualquer didatismo. Não existe qualquer lição de moral de fácil apelo ao público, mas sim a tentativa de reproduzir uma situação de brutalização do humano no qual não faltam imprecações, ainda inéditas nos cinemas americano e europeu do período, assim como rivalidades crescentes por mesquinharias que acabam gerando mortes, numa demonstração de quão cruel o ser humano pode ser para levar adiante o seu instinto de sobrevivência. Aos mortos não é dirigido qualquer atenção sentimental, como habitualmente observado no gênero, mas antes se procura se apropriar dos bens relevantes por eles carregados – exemplarmente demonstrado na cena em que Tamura se apodera das botinas de um cadáver. Esse tampouco pode ser considerado como herói nos moldes maniqueístas/melodramáticos do termo já que, a certo momento, assassina um aldeão indefeso em uma vila semi-fantasma e em outro, mata um dos companheiros que havia mal concluído o assassinato de um terceiro.  Daiei Studios. 108 minutos. 

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