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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Filme do Dia: As Portas do Inferno (1916), Charles Swickard

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As Portas do Inferno (Hell’s Hinges, EUA, 1916). Direção: Charles Swickard. Rot. Original: C. Gardner Sullivan, a partir de seu próprio argumento. Fotografia: Joseph H. August. Música: Victor Schertzinger.  Com: William S. Hart, Clara Williams, Jack Standing, Alfred Hollingsworth, Robert McKim, J. Franke Bourke, Louise Glaum.
O Reverendo Robert Henley (Hart) é enviado por seus superiores para um vilarejo perdido do Oeste. Com ele vai sua irmã Faith (Williams), despertando o interesse imediato do fora-da-lei Blaze (Heart). Quanto a ele, atrai imediatamente o interesse do malévolo dono do saloon local, Silk Miller (Hollingsworth), que rapidamente designa uma de suas garotas, Molly (Glaum) para seduzi-lo.  Ela o consegue, embebedando-o e quando os devotos da cidade vão para o culto na manhã seguinte, ficam sabendo que Henley se encontra no saloon. Sua irmã, Faith, não acredita e vai com Blaze, que ajudara a construir a igreja local, até o local, encontrando-o desacordado nos braços de Molly. O grupo de frequentadores do saloon decide incendiar a igreja, liderados pelo próprio Henley, completamente fora de si. Eles o conseguem, mesmo muitos sendo mortos e feridos pelos crentes, dentre eles o próprio Henley. Blaze, que não se encontrava no local no momento, vai desesperado de encontro a Faith. Ele a encontra ao lado do cadáver do irmão. Faith, prenhe de ódio, vai até ao saloon, mata Silk Miller e escorraça todos do local, não antes de também fazer com que se incendeie. Parte com Blaze e o corpo do irmão, enterrando-o e orando a Deus para trazer felicidade para ela.
Talvez mais que qualquer outro esse filme tenha pavimentado a senda para o que de mais sólido se erigiu em termos da mitologia do westrn no cinema clássico. A sua contraposição entre “pecadores” e “virtuosos” que perpassa praticamente todos os filmes do gênero em maior ou menos grau,  seria retrabalhada de forma mais complexa, nuançada e sutil em outros filmes-chave do gênero como No Tempo das Diligências (1939), de Ford. Aqui, como lá, é justamente a figura marginalizada do até então  fora-da-lei que tenta, a fogo e ferro, traçar o caminho moral e civilizatório que lhe fora incutido, algo que como por osmose e encantamento, a partir de sua figura feminina. Há uma abundância de clichês, sobretudo os associados a gêneros, que vai da fraqueza carnal do irmão x santidade da irmã, da santidade da irmã x corrupção moral de Molly que não impedem que o filme, de forma mais efetiva e direta que a maior parte do que se produziu depois ou antes, contraponha ostensivamente valores de mundo encarnados por essas duas instituições chaves do universo do western, saloon e Igreja. E, nessa guerra santa, nada impede que os devotos façam uso de armas e matem não em sua legítima defesa, mas para proteger o prédio que haviam construído. A malícia e sensualidade apresentada por Glaum (que se tornaria marca registrada de sua persona cinematográfica com outros títulos sugestivos como The Leopard Woman e Sex) na cena de sedução seria impensável em seus correspondentes da era clássica. O filme, mesmo que inadvertidamente, desmente parcialmente o topos dos pioneiros trazendo civilização a uma brutal terra sem lei; parcialmente, por conta de após a radical guinada sofrida pelo até então fora-da-lei vivido pelo galã Hart (que co-dirigiria, sem crédito, o filme), esse passa a se tornar um moralista mais empedernido que qualquer outro do grupo – tendo consigo um instrumental algo ausente em boa parte deles, que é a coragem e o sangue frio para enfrentar um grupo inteiro de “desordeiros” (situação que se repetirá, em um cenário mais laico num filme como O Homem dos Olhos Frios).  National Film Registry em 1994. Kay-Bee Pictures/New York Motion Picture. Para Triangle Distributing. 64 minutos.