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sexta-feira, 26 de maio de 2017

The Film Handbook#129: Orson Welles

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Orson Welles
Nascimento: 06/05/1916, Kenosha, Wisconsin, EUA
Morte: 10/10/1985, Hollywood, Califórnia, EUA
Carreira: 1934-1985

É quase tragicamente irônico que George Orson Welles, sem dúvida um dos mais realizadores de todos os tempos, tenha sido forçado a trabalhar a maior parte de sua carreira sobre as mais adversas condições. Tal era seu gênio e ambição que seus filmes, anos adiante de seu tempo, ainda surpreendem por sua inventividade, virtuosidade estilística e frescor; embora a visão amplamente tida que nunca teria cumprido sua promessa inicial não leve em conta a consistência temática e moral de sua obra, para não dizer de sua incansável experimentalismo.

Ex-criança prodígio que atuava, pintava e fazia mágicas, Welles ganhou proeminência primeiro no teatro, tendo revelado sua habilidade em interpretar personagens de idade bem mais avançada enquanto ator adolescente no Dublin Gate Theatre. Provou a si mesmo ser um diretor inovador e com várias produções ambiciosas em Nova York (um Macbeth repleto de vodu, um Julio César com figurinos modernos, a hoje legendária encenação de O Poder Vai Dançar/Craddle Will Rock). Por volta de 1938, seu grupo teatral Mercury (formado em colaboração com John Houseman, posteriormente um destacado produtor de cinema) embarcou em uma série de versões experimentais para o rádio de vários clássicos, cuja fama foi assegurada pelo pânico disseminado por uma adaptação de A Guerra dos Mundos de H.G.Wells em formato de noticiário. Por volta de 1940, de fato, já havia tido sua experiência cinematográfica com um bizarro filme doméstico (Hearts of Age) e a farsa hoje perdida Too Much Johnson, realizado para acompanhar uma peça que não chegou a ser montada na Broadway. Porém foi somente quando a RKO, estimulada pela excitação provocada por A Guerra dos Mundos, ofereceu-o um pequeno orçamento e um grau de liberdade artística sem precedentes que ele realizaria propriamente sua estreia como diretor.

Tendo preparado e abandonado diversos projetos (incluindo uma versão de No Coração das Trevas/Heart of Darkness de Conrad) Welles finalmente completou Cidadão Kane/Citizen Kane>1, em 1941. Uma biografia de um magnata da imprensa, interpretado pelo próprio Welles e vagamente inspirado em William Randolph Hearst, apresentado em flashbacks recontados por um punhado de seus conhecidos, o filme fez uso revolucionário de um deslumbrante e eclético conjunto de efeitos visuais, aurais e narrativos. Ele foi fotografado em profundidade de foco com iluminação discreta e chiaroescuro; denso, com diálogos acelerados e sobrepostos, assim como virtuosa montagem; estruturado como um mistério labíritinco e metafísico, cujo segredo ao final é a impossibilidade essencial de se conhecer a personalidade humana. A engenhosa e comovente análise de Welles do compromisso, solidão e traição (muito da vida inicial de Kane é próxima da própria juventude do diretor) e universal em sua relevância política e filosófica. Porém o império jornalístico de Hearst, incensado talvez pela similaridade da relação de Kane por sua amante destituída de talento cantora de ópera com o de Hearst com a atriz Marion Davies, travou uma ácida batalha crítica contra o filme; isso afetou não somente as bilheterias, mas - e mais importante - a Welles nunca mais seria permitida total liberdade artística em Hollywood.


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Um império construído sobre o papel: Charles Foster Kane (Orson Welles) e o amigo Jedediah Leland (Joseph Cotten) em Cidadão Kane, surpreendente e complexo longa de estreia de Welles sobre um magnata da imprensa como Hearst

De fato, seu filme seguinte, Soberba/The Magnificent Ambersons>2, foi parcialmente montado e refilmado pela RKO, enquanto Welles se encontrava no Brasil filmando It's All True (ao qual nunca lhe foi permitido concluir). Ainda assim, Soberba permanece uma obra-prima mutilada, uma narrativa sutilmente irônica e elegíaca do declínio de uma rica família americana nos primeiros dias da industrilização em massa; embora um final feliz filmado na ausência de Welles soe controverso, o filme ressoa com um sofrido senso de perda. Seu projeto seguinte, e igualmente objeto da interferência do estúdio, Jornada do Pavor/Journey into Fear que Welles dirigiu "através" de Norman Foster, foi um estilizado filme de ação de espionagem que serviu tanto para revelar sua versatilidade e (na figura de seu chefe policial turco Coronel Taki) seu amor por interpretar personagens ambíguos e maiores que a vida.

Livre agora de seu contrato com a RKO, e considerado injustamente pelos estúdios como um talento difícil e muito extravagante, Welles foi motivado a provar que fazia filmes mais convencionalmente comerciais: O Estranho/The Stranger é um filme de ação político inteligente mas relativamente convencional sobre um nazista camuflado numa cidade provinciana americana. A Dama de Xangai/The Lady from Sanghai>3, no entanto, foi um noir escandalosamente barroco, seu enredo (um ingênuo marinheiro irlandês fica enfeitiçado por uma femme fatale e seu marido aleijado, um advogado corrupto) virtualmente incompreensível, enquanto suas imagens expressionistas - todos ângulos inclinados, grotescos primeiros planos e reflexões bizarras - criam um mundo traiçoeiro, caótico e confuso. Ao mesmo tempo uma paródia e uma meditação poética e melancólica sobre a inocência em um mar de tubarões humanos, o filme também pode ser visto como um comentário irõnico sobre o próprio casamento de Welles com Rita Hayworth (cujo famoso cabelo ele esfoliou e tingiu de louro para o papel). Muito certamente, Harry Cohn da Columbia, irado pela forma como sua estrela glamorosa havia sido levada a interpretar uma manipuladora fria e desalmada, adiou o lançamento do filme; e após uma versão grandemente criativa e visivelmente de baixo orçamento
de Macbeth, filmada com cenários de papier maché na modesta Republic, Welles abandonou a América por um prolongado exílio europeu, onde seus próprios projetos foram em parte financiados por suas interpretações regulares em filmes de outros diretores.

Filmado aos pedaços em diversos países ao longo de quatro anos, Othello.4, foi um tiunfo miraculoso da mente sobre a matéria: obstáculos se transformaram em vantagens criativas (talvez de forma mais memorável uma soberba cena de assassinato filmada em um banho turco quando os figurinos dos atores não se materializaram), enquanto seu estilo visual alucinatório foi uma vívida reflexão tanto dos tormentos interiores do mouro quando do ciúme malevólo de Iago, aqui enraízados em sua impotência sexual. Não menos ambicioso foi Grilhões do Passado/Mr.Arkadin (Confidential Report), um bizarro e frequentemente maravilhoso retorno semi-cômico aos mistérios sinistros de Kane, com um magnata dizendo-se amnésico contratatando um aventureiro oportunista para mergulhar em seu passado sombrio de forma que possa destruir com todos aqueles que possam ter testemunhado os pecados de sua juventude. Melhor que todos, no entanto, foi A Marca da Maldade/Touch of Evil>5, delirantemente pesadelístico filme de ação noir realizado nos Estados Unidos - sua estrela, Charlton Heston, exigiu que Welles o dirigisse. Uma análise complexa e irônica da relação entre lei e justiça (o inchado e intolerante policial Quinlan de Welles pode ser corrupto, mas o mexicano que ele persegue por assassinato transpira culpa) o filme, ambientado em uma fronteira infernal apresenta narcóticos, o estupro de uma gangue, racismo, prostituição e uma corrupção quase universal. Mas, do primeiro e notável travelling com grua que segue o carro até ele finalmente explodir ao cenário, por entre monstruosas torres de petróleo, Welles transforma seu tema sórdido em uma brilhantemente estilizada mistura de melodrama e tragédia no qual o herói, fracassado e condenado, por fim, não é Quinlan, mas a verdade em si mesma.

Parcamente distribuído, o filme foi um fracasso e Welles retornou a Europa. Uma versão de O Processo/The Trial>6, de Kafka chamou a atenção por seu uso inventivo de bizarras locações expressionistas para evocar o senso de medo e alienação de K, um herói culpado; Falstaff - O Toque da Meia-Noite/Chimes at Midnight (Falstaff)>7, por sua vez, foi um lamento comovente e nostálgico por uma Inglaterra utópica com Welles saquando cinco peças de Shakespeare para pintar um adorável retrato de Falstaff enquanto um inocente sonhador que finalmente cai preso da presunção do Príncipe Hal pelo poder monárquico. A despeito de seu tom elegíaco, o filme evita o sentimentalismo; de fato, sua cena de batalha épica é uma das mais imediatamente físicas e brutais jamais filmadas. Em todo mais intimista, mas imbuído de um lirismo igualmente maduro foi História Imortal/The Immortal Story>8, uma pequena jóia realizada para a televisão francesa e adaptada de uma história sobre envelhecimento de Isak Dinensen (Karen Blixen), com um comerciante ao estilo de Kane em Macau que tenta  transformar uma lenda (na qual um velho contrata um marinheiro para engravidar uma mulher) em fato. Uma variação elegante e na surdina dos temas permanentes de Welles - a natureza ilusória da verdade, a corrupção que atende ao poder - seu visual sutilmente espelhava a decepcionante simplicidade de seu enredo.

Depois disso, Welles retornou aos Estados Unidos para trabalhar em uma série de filmes que nunca seriam completados ou lançados: portanto The Deep e The Other Side of the Wind tiveram seu lugar ao lado de uma incompleta versão atualizada de Don Quixote, iniciada em 1958 e ainda trabalhada em intervalores regulares. Entre suas aparições em comerciais de televisão e programas de entrevistas, no entanto, ele lançou Verdades e Mentiras/F for Fake>9, uma combinação facilmente engenhosa de imagens de arquivo remontadas (um documentário de François Reichenbach sobre o falsificador de arte Elmyr de Hory e um falso biógrafo Clifford Irving) e reminiscências pessoais sobre as relações entre charlatanismo e autoria na arte. Ao mesmo tempo um ensaio discursivo  e uma maliciosa mentira o filme (o último de Welles, caso não contemos Filming Othello, uma narrativa anedótica da sitiada produção) foi um singularente apropriado canto de cisne de um diretor de gênio que sempre levou o cinema, mas raramente a si próprio, a sério.

Até o final de seus dias, Welles permaneceu criativo, escrevendo e filmando fragementos de filmes que nunca - em grande parte graças a uma desedenhosa indústria - seriam completados; pouco antes de morrer, ainda havia esperanças de que ele pudesse realizar Rei Lear/King Lear ou um filme sobre a produção dos anos 30 O Poder Vai Dançar. Ele permanece importante não apenas pela autoridade, imaginação e pura bravata de sua própria obra, mas pela forma como frequentemente inspirou outros diretores com suas interpretações (Jane Eyre, de Robert Stevenson, O Terceiro Homem de Reed e Malpertuius de Harry Kumel para citar apenas os exemplos mais notórios). Porém a maior conquista de Welles reside na forma como expandiu os horizontes do cinema, de modo que - seja qual fosse sua fonte, Shakespeare ou um suspense barato - temas filósificos, políticos e pessoais fossem combinados para criar entretenimento inteligente que foi puramente cinemático.

Cronologia
Ele próprio um admirador de Ford, Renoir e dos expressionistas alemães, Welles tem sido imensamente influente no cinema (Houseman, Robert Wise, Mark Robson e Richard Wilson, para não mencionar o compositor Bernard Hermann, todos trabalharam em Cidadão Kane). Nos anos posteriores, talvez ele foi mais próximo de Henry Jaglom. Comparações, no entanto, tornam-se impossíveis. Ele foi único e inimitável.
Leituras Futuras

The Magic World of Orson Welles (Nova York, 1978), de James Naremore, The Making of Citizen Kane (Londres, 1985), de Robert Carringer, Orson Welles (Londres, 1972), de Joseph McBride; Orson Welles: A Biography (Nova York, 1986), de Barbara Leaming.

Destaques
1. Cidadão Kane, EUA, 1941 c/Orson Welles, Joseph Cotten, Everett Sloane, Ray Collins

2. Soberba, EUA, 1942 c/Tim Holt, Joseph Cotten, Dolores Costello, Agnes Moorehead

3. A Dama de Xangai, EUA, 1946 c/Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders

4. Othello, Itália, 1952 c/Welles, Michael MacLiammoir, Suzanne Cloutier

5. A Marca da Maldade, EUA, 1958 c/Charlton Heston, Welles, Janet Leigh, Akim Tamiroff

6. O Processo, França, 1962, c/Anthony Perkins, Welles, Jeanne Moreau

7. Falstaff - O Toque da Meia-Noite, Espanha, 1966 c/Welles, Keith Baxter, John Guielgud, Jeanne Moreau

8. História Imortal, França, 1968 c/Welles, Jeanne Moreau, Norman Eshley, Roger Coggio

9. Verdades e Mentiras, França, 1975 c/Welles, Oja Kodar, Clifford Irving, Elmir de Hory

Texto:Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 308-11.

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