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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Filme do Dia: Viagem ao Princípio do Mundo (1997), Manoel de Oliveira


File:Viagem ao Princípio do Mundo.jpg

Viagem ao Princípio do Mundo (Idem, França/Portugal, 1997). Direção: Manoel de Oliveira. Rot. Original:  Manoel de Oliveira. Fotografia: Renato Berta. Música: Emmanuel Nuñes. Montagem: Valérie Loiseleux Com: Marcello Mastroianni,  Jean-Yves Gautier,  Leonor Silveira,  Diogo Dória,  Isabel de Castro,  José Pinto,  Manoel de Oliveira.
          Disposto a revisitar os locais que conheceu durante sua infância em Portugal, o cineasta Manoel (Mastroianni) empreende uma pequena jornada a vila onde morou com sua família: observa de longe o prédio onde funcionara o colégio de jesuítas onde estudara; a casa, hoje em ruínas,  onde agonizara um jovem de tifo; a árvore com as marcas de um banco que dividira na adolescência com amigos; uma estátua de um homem com o eterno sofrimento de carregar um tronco sobre as costas. Quando observa a estátua, passa uma portuguesa que conta uma ladainha a respeito da mesma.  Juntamente com Manoel  se encontram um ator de sua nova produção, Afonso (Gautier), sua esposa Maria (Castro) e Duarte (Dória), todos portugueses. Embora filho de portugueses, Afonso nasceu na França e agora pretende aproveitar a oportunidade e conhecer uma irmã de seu pai, Judite (Silveira). Quando chegam na casa da tia de Afonso, no entanto, todos se surpreendem com a extrema desconfiança da velha e seu esposo. Ela não acredita que um filho de seu irmão, que abandonou a família desde adolescente, e depois só deu notícias para pedir dinheiro, não saiba português. Quando sabe que o sobrinho é um famoso ator de televisão, pouco se importa, já que acredita que a televisão é um instrumento do demônio, que apenas incute o sexo na cabeça das pessoas. Porém, quando Afonso pede que ela aperte seu braço e que sinta que o sangue que corre nas suas veias é o mesmo dela, emociona-se. Faz questão, então, de lhe entregar um pão, para que ele guarde com ele, como garantia para que saia ileso das guerras que nunca acabam na Europa, como a que atualmente ocorre na Croácia, mas que também pode se estender à França. Ao mesmo tempo suspira a morte lenta do país, agora que todos os jovens só pretendem viver em grandes cidades, e o campo ficou entregue aos velhos, que não possuem agilidade ou maquinário suficiente para prover às cidades. Após visitarem o túmulo de seus familiares, Afonso tem que interromper a oração que faz com a tia, já que é hora de partir para as filmagens. Quando se encontra preparando a maquiagem para entrar em cena, ele repete a ladainha sobre a estátua e é surpreendido pela gargalhada de Manoel e outros membros da produção. Afonso afirma então para Manoel que se transformara em outro homem após essa viagem, da mesma forma que o próprio Manoel havia se transformado. Manoel incita-o a levar seu novo personagem consigo para o momento da interpretação.                        
Duplamente autobiográfico - tanto o personagem Manoel de Mastroianni é alter-ego de Oliveira como o de Afonso é de um ator português - Manoel de Oliveira conduz o filme num ritmo que procura ao máximo explorar as facilidades que um meio como o cinema pode oferecer a uma narrativa realista. Lidando com um tempo diegético não superior a algumas horas, o filme consegue tirar bom proveito dessa condensação de espaço e tempo - os longos travellings de parte do percurso que os personagens percorrem ajudam bastante no que diz respeito ao espaço, da mesma forma que também pontuam a diferença entre um momento lírico - como as lembranças de Manoel do jardim onde vivera parte de sua adolescência - e outro mais histriônico - como a impossibilidade de Judite aceitar Afonso como sobrinho, pelo fato de não falar português. Despojadas de qualquer excesso dramático, as situações e diálogos tanto expressam uma jornada extremamente íntima - e o deslocamento do foco de atenção de Manoel para Afonso apenas acentua o caráter de aparente falta de controle sobre o que é narrado tão caro a dramaturgia neorrealista - como preocupações sociais mais amplas, como a bélica (a evocação repetida a Croácia) e o futuro de todo um estilo tradicional de vida na província portuguesa. Sua contida construção dramática evoca tanto o cinema iraniano contemporâneo quanto, por exemplo, Os Vivos e os Mortos  (1988), de Huston, com quem também compartilha uma certa melancolia nostálgica. Menos do que de momentos isolados, é no seu conjunto que o filme demonstra sua força. Aqui, lidando com um tema menos pretensioso, Oliveira conseguiu melhor resultado que em O Convento. Último filme de Mastroianni, a quem o filme é dedicado. Gemini Films/IPACA/Le Studio Canal +/Madragoa Filmes/RTP. 95 minutos.

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