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domingo, 25 de outubro de 2015

Filme do Dia: Barravento (1962), Gláuber Rocha



Barravento (Brasil, 1962) Direção: Gláuber Rocha.  Rot.Original: Gláuber Rocha&José Telles de Magalhães. Fotografia: Tony Rabatony. Montagem: Nelson Pereira dos Santos. Música: Washington Bruno (Canjiquinha): samba de roda e capoeira; Batatinha: samba.Com: Antônio Pitanga, Luiza Maranhão, Lucy Carvalho, Aldo Teixeira, Lídio Silva, Rosalvo Plínio, Alair Liguori, Antonio Carlos dos Santos, D. Zezé, Flora Vasconcelos.
      A comunidade pesqueira de Buraquinho, próxima à Itapoã, Bahia, é regida pelo saber tradicional. Reza a crença que um homem belo deve permanecer virgem, para que a pesca continue farta. Seguindo a tradição do Mestre (Silva) o escolhido é Aruã (Teixeira). Com a chegade de Firmino (Pitanga), nativo que viajou para a cidade e lá teve contato com valores seculares e voltou trajando-se como malandro urbano, inicia-se um conflito. Firmino prega contra os valores tradicionais, contra a tradição encarnada em Aruã e no Mestre, onde enxerga a exploração sobre a população analfabeta por parte de empresários da pesca. Encontrando-se com Cota (Maranhão), Firmino promete efetivar um despacho contra Aruã. Paralelo aos conchavos de Firmino, Naína (Carvalho), participa de um ritual que lhe dirá se é ou não filha de Iemanjá. Como o despacho não funciona, Firmino arquiteta outro plano para desacreditar Aruã. Aproveitando o momento de discussão em torno da rede envelhecida - em que o representante deixa bem claro que seu chefe não comprará outra e que eles terão que remendar a atual - fura, na calada da noite, a rede que havia sido laboriasamente consertada pelos pescadores. É surpreendido por Cota, mas esta não só promete não contar para ninguém, como seguir o conselho de Firmino para dormir com Aruã. Enquanto isso, o representante do dono da rede a leva de volta e o Mestre decide que se deve pescar como antigamente: sem rede. Aruã parte como exemplo e é bem sucedido. Os pescadores, sentindo-se seguros, seguem o exemplo de Aruã. Cota consegue seduzir Aruã. No mesmo momento em que Cota e Aruã se amam na praia, Naína, já considerada como filha de Iemanjá, vive um ritual iniciático. Firmino chega na barraca de Seu Vicente, pai de Naína, e o avisa que ouviu do mar um chamado por seu nome. Seu Vicente acredita tratar-se de Iemenjá e parte para o mar. Uma tempestade se inicia. Aruã e um amigo seu, Chico, partem em busca de Seu Vicente. Quando retorna avisa para todos que tanto Chico quanto Seu Vicente se encontram mortos. No meio da confusão Cota morre afogada. Aruã retorna derrotado. Firmino afirma, diante de todos, que Aruã não é nenhum santo, antes um homem de carne-e-osso e que havia dormido com Cota na noite anterior. Indignado, Aruã parte para uma briga de capoeira com Firmino, que o vence, mas pede que sigam Aruã como novo líder. Aruã se volta contra o Mestre. Este procura desacreditá-lo frente à comunidade. Após cortar os cabelos, Naína é avisada pelas mães-de-santo que pode salvar, com sua dedicação, Aruã. Aruã parte para a cidade. Pretende seguir a experiência de Firmino, e posteriormente voltar com uma rede nova, despedindo-se de Naína e se comprometendo de se unir com ela quando retornar.
Primeiro longa-metragem de Gláuber Rocha, que assumiu a produção durante as filmagens. Utilizando-se de um estilo visual bem próximo do neo-realista e, por outro lado, expressando um conteúdo ideológico que se identificava plenamente com o ideário da esquerda brasileira da época. Já nesse primeiro longa se detectam tanto alguns dos pontos positivos - a poesia visual de certos momentos como o da dança das mães-de-santo no ritual de Naína, a força da montagem paralela que contrapõe o ritual com a cena de amor na praia e a corrida de Cota para a morte - e negativos - o didatismo de certos personagens, como Firmino, e diálogos - que caracterizariam a obra do cineasta. A vulgarização do pensamento marxista - na figura do materialista histórico e pé-no-chão Firmino - tem como conseqüência uma identificação simplificadora dos ritos religiosos do candomblé com a alienação, o que empobrece o contato com o imaginário popular e o papel do intelectual, que seriam amadurecidos em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), e superados criticamente em Terra em Transe (1967). Porém a polaridade forçada que contrapõe História e Tradição foi vingada com o passar do tempo: os dialógos com palavras de ordem e chavões esquerdistas hoje soam datados ou simplificadores, enquanto a riqueza visual de certos momentos descritivos de saberes tradicionais ou mesmo elementos neutros (a corrida de Cota para a morte, a bela composição da imagem da cena em que Aruã se despede da comunidade), permanece intatacta e legitimamente cinematográficas. Sua poesia visual e sua utilização da mitologia evocam o clássico Tabu (1931) de Murnau, enquanto por outro lado seus conflitos sociais na relação entre exploradores e explorados,  evocam o clássico neo-realista A Terra Treme (1947) de Visconti, ambos ambientados igualmente em comunidades de pescadores. Iglu Filmes. 80 minutos.



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