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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Filme do Dia: O Ato de Matar (2012), Joshua Oppenheimer & Christine Cynn

O Ato de Matar (The Act of Killing, Dinamarca/Noruega/Reino Unido, 2012). Direção: Joshua Oppenheimer, Anônimo & Christine Cynn. Fotografia: Anônimo, Carlos Arango de Montis & Lars Skree. Música: Karsten Fundal. Montagem: Nils Pagh Andersen, Erik Andersson, Charlotte Munch Bengtsen, Janus Billeskov Jansen, Ariadna Fatjó-Villas & Mariko Montpetit.
Esse documentário consegue compor um painel extraordinariamente bizarro ao acompanhar ex-assassinos de milícias que atuaram fortemente no norte da Indonésia em meados dos anos 60, com apoio oficial. O documentário se propõe a uma reencenação dos atos dos membros do esquadrão da morte, a partir de insights visuais oferecidos pelos próprios membros dos mesmos. O resultado, um tanto incomum, é um universo no qual as mais desvairadas fantasias – fotografadas e enquadradas de forma magistral que pouco evocam o universo do documentário – como a de um número musical próximo a uma cachoeira que evoca um momento de redenção associado as cerca de mil pessoas que um dos assassinos matou se encontrariam entrando no céu são encenadas, em meio a outras reconstituições de cunho mais “realista”; ainda que mesmo nessas as situações são observadas sob a ótica do excesso, uma forma de absurdamente lidar com uma situação em si própria absurda e limítrofe, que é as situações nas quais grupos inteiros de homens, mulheres e crianças foram massacrados. Curiosamente, a reencenação ficcional começa a fazer com que a barreira inicial com que alguns dos líderes das chacinas se protegiam a si próprios emocionalmente de revisitarem de forma mais direta esse passado brutal emerja. Num caso, especificamente, observa-se de forma explícita tal colisão, quando o próprio miliciano ouve da boca do realizador que o sofrimento que ele passara ao encenar algumas situações não apenas se equivalia ao dos vitimados como o daqueles fora de longe muito pior, já que não apenas uma encenação. Revisitando posteriormente um dos locais das suas vítimas, ele se torna vítima de acessos de vômito. Paradoxalmente, o filme tampouco deixa de transformar em figuras carismáticas os “atores”, um dia sanguinários assassinos, buscando se aproximar sobretudo daqueles que apresentam um potencial que se sobrepõe somente ao sexismo ou ao exibicionismo dos bens materiais acumulados na empreitada. No plano sócio-político mais amplo, é assustador se observar as demonstrações oficiais de regozijo pela morte de mais de um milhão e meio de pessoas opositoras, genericamente rotuladas como “comunistas”. O documentário se abstém de apresentar mais que alguns comentários de contextualização ocasionais além das legendas iniciais explicativas. Contundente e sobretudo desconcertante pela sua mudança de registros, do mais implacavelmente dramático ao escapismo mirabolante e histriônico. Por mais que as atividades radicalmente bárbaras dos “gangsters” ou homens livres, como se autodenominam se encontrem associadas ao passado, o filme acompanha a trajetória dos mesmos numa atitude aparentemente de mera emulação, mas que de fato é efetivamente de extorsão de comerciários como no passado. E a tensão estampada nos rostos dos mesmos é bastante evidente.  Essa é a versão do diretor, existindo outra com 115 minutos. Boa parte da ficha técnica é repleta de "anônimos", pois se trata de membros da equipe - inclusive um crédito de direção - que temem  represálias por terem participado dessa produção.  Final Cut for Real/Novaya Zemlya/Piraya Film A/S para Final Cut for Real. 159 minutos.


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