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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Filme do Dia: Orfeu (1950), Jean Cocteau

Orfeu (Orphée, França, 1950). Direção e Rot. Original: Jean Cocteau. Fotografia: Nicolas Hayer. Música: Georges Auric. Montagem: Jacqueline Sadoul. Dir. de arte: Jean d' Eaubonne. Figurinos: Marcel Escoffier. Com: Jean Marais, François Périer, Maria Casarès, Marie Déa, Edouard Dermithe, Henri Crémieux, Juliette Gréco, Roger Blin.
      Orfeu (Marais) é um poeta reverenciado que desperta paixões intensas, tanto de seus admiradores quanto de seus detratores. Em meio a uma briga generalizada que ocorre em um bar freqüentado por artistas de vanguarda, ele se sente atraído por uma senhora (Casàres) que leva um jovem poeta de 18 anos, Cegeste (Dermithe), atropelado, em seu carro, que o chama. Dentro do carro, ele não consegue que ela responda nada sobre o que acontece e constata que o jovem se encontra morto. O que ele não sabe é que tal mulher é, na verdade, a Morte, que conta com dois asseclas seus, Heurtebise (Périer) e o recém-falecido Cegeste. A Morte, apaixonada por Orfeu, leva-o a sua esposa Eurydice (Déa), pelas mãos do apaixonado Heurtebise, enquanto Orfeu se mantém mesmerizado em seu carro, pelas transmissões do Outro Mundo. Sua esposa retorna, com a condição de que nunca mais volte a encará-la, o que inevitavelmente ocorre. Orfeu é guiado através dos espelhos para um encontro com sua própria Morte. Porém no Outro Mundo, povoado por mortos-vivos, a Morte é condenada por ter trazido Orfeu por mero capricho e, a contragosto faz com que ele e a esposa retornem ao mundo dos vivos.
     Uma das mais bem realizadas incursões ao mundo dos mitos já realizadas pelo cinema, o filme de Cocteau, ainda mais que A Bela e a Fera (1946), de pesada cenografia, traduz com uma sutileza ímpar, um universo de fantasia construído a partir da lógica da austeridade dos recursos empregados – sejam os belos efeitos ópticos como o da projeção reversa, câmera lenta, back shot etc. ou a não menos austera cenografia. Não menos notável é o sofisticado enquadramento e a utilização do tema clássico de Glück, assim como a utilização vanguardista mesclando elementos míticos e atemporais com recursos tecnológicos contemporâneos – notadamente as transmissões do além que Orfeu escuta no rádio do carro e as motocicletas utilizadas pelos anjos da morte (tendência que exerceria forte influência no trabalho do cineasta britânico Derek Jarman décadas após, em filmes como Eduardo II). A própria representação da morte, que auto-analisa sua encarnação sobre uma figura charmosa e atraente como uma forma de driblar aqueles que já a conhecem das representações tradicionais, é um destaque à parte, com uma iluminação especial que faz com que um halo de luz circunde seus olhos (efeito posteriormente utilizado numa encarnação pasteurizada e satírica do macabro em A Família Addams). As incursões de Orfeu para o mundo do além são representadas por um extenso corredor que representa a fronteira entre a vida e a morte e uma imagem que sobrepõe Heurtbise a uma  outra imagem em back shot de Orfeu e que são provas do talento ímpar de Cocteau para a construção de imagens oníricas, apesar de aqui preferencialmente sejam priorizadas imagens realistas, o que paradoxalmente apenas acentua o caráter fantástico, tal e qual em Nosferatu (1922) de Murnau. Já a sensação de cotidiano subitamente invadido por elementos metafísicos pode ter servido de influência para Tarkovski. A superioridade do trabalho de Cocteau sobre a média do que era feita então na França pode ser vislumbrada a partir da comparação com outro filme de tema fantástico, realizado na mesma década, Os Visitantes da Noite (1942), de Carné. No prólogo, a narração – do próprio cineasta – justifica a adaptação do drama grego para a França contemporânea. Refilmado na década de 80 por Jacques Demy. O cineasta também realizaria ainda O Testamento de Orfeu (1960), seu último filme.   Andre Paulve/ Films du Palais Royal 112 minutos

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