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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Filme do Dia: Brutalidade (1947), Jules Dassin



Brutalidade (Brute Force, EUA, 1947). Direção: Jules Dassin. Rot. Original: Richard Brooks, a partir do argumento de Robert Patterson. Fotografia: William H. Daniels. Música: Miklós Rózsa. Montagem: Edward Curtiss. Dir. de arte: John DeCuir&Bernard Herzbrun. Cenografia: Russell A. Gaussman. Figurinos: Rosemary Odell. Com: Burt Lancaster, Hume Cronyn, Charles Bickford, Art Smith, Yvonne De Carlo, Ann Blyth, Sam Levene, Jeff Corey, John Hoyt, Sir Lancelot, Jay C. Flippen, Roman Bohnen.
Numa penitenciária a tensão aumenta após a morte de um dos prisioneiros por outros, episódio que serve para uma postura de maior rigidez e disciplina que contraria os princípios do diretor da prisão, Warden Barnes (Bohnen) assim como do médico que lá atende, Dr. Walters (Smith). Quem ganha espaço na hierarquia profissional é o violento Capitão Munsey  (Cronyn), que não se esquiva em torturar presos buscando delações. Um dos prisioneiros mais rebeldes é Joe Collins (Lancaster), que planeja uma ação conjunta de fuga. Os planos prévios chegam aos ouvidos dos dirigentes da instituição e em plena crise Barnes é destituído de seu cargo, enquanto todos os poderes são delegados a Munsey.
Dassin empreende um filme em que comentário social tipicamente liberal – não por acaso escrito por um dos nomes que mais se identificará com tal postura na década seguinte, Richard Brooks (Sementes da Violência) – emerge a partir de um ambiente quase estritamente prisional do início ao final do filme, pontuado por flashbacks dos personagens com relação a suas respectivas mulheres endereçados a um calendário na parede. Anti-sentimental e seco em sua descrição, mesmo quando comparado a alguns clássicos precursores ou neo-realistas que abordavam universo semelhante (a exemplo de A Culpa dos Pais, de De Sica), o filme se importa menos em vilanizar seus criminosos, aqui observados quase como que o oposto, que as teias sociais corruptas nas quais estão engendrados, representados por instâncias de poder acima do universo da prisão, e portanto não presentes no filme, assim como membros do próprio sistema carcerário, representado sobretudo pela figura vilanesca de Munsey, ao qual não escapa a chance de torna-lo como uma espécie de alegoria do totalitarismo recém-derrotado na Europa – a determinado momento ouvimos a célebre abertura de Tannhauser, de Wagner aparentemente como trilha incidental, mas logo descobriremos que é Munsey quem a escuta enquanto método de inspiração para torturar aqueles que se negam a “colaborar” – numa sequencia algo evocativa, ainda que menos emocionalmente manipulativa a da tortura contra os membros da Resistência em Roma: Cidade Aberta. Surpreende pela violência coletiva representada no massacre final, ao mesmo tempo sem deixar de flertar com códigos tipicamente do cinema de gênero convencional, ao não deixar de apresentar o clássico confronto entre forças do bem e do mal, ainda quando representadas aqui pelo sinal invertido – parece existir uma estratégia deliberada de não identificar os derrotados sociais como os derrotados morais como de praxe, apresentando exemplos de moralidade ética em figuras como o médico alcoólatra ou vários dos prisioneiros - através da luta final entre Joe Collins e Munsey. Se há algum vitorioso nessa batalha, e novamente aqui em contraposição ao final habitual de semelhantes contendas, esse parece ser o próprio sistema, que continua sua rotina após os ânimos acalmados. Filme que consolidou Lancaster como astro e o segundo dos três que realizaria para o produtor Mark Hallinger, morto antes da conclusão do último. Mark Hellinger Prod./Universal Pictures para Universal Pictures. 98 minutos.


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