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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

The Film Handbook#46: Joseph Losey


Joseph Losey
Nascimento: 14/01/1909, La Crosse, Wisconsin, EUA
Morte: 22/06/1984, Londres, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1939-84

Joseph Losey foi um diretor de raras ambições e habilidades intelectuais. E talvez seja salutar que sua melhor obra emergiu dentro das limitações das convenções de gênero, enquanto seus filmes dos anos 60 e primórdios dos 70, quando a liberdade artística era maior, frequentemente soam pretensiosos, demasiado enfáticos, estudados e insípidos.

Losey iniciou sua carreira artística no teatro e no rádio aonde um interesse em um trabalho comprometido em termos experimentais e políticos o levou a uma bem sucedida colaboração com Brecht na peça Galileo. O cinema, no entanto, o atraiu e após diversos curtas educacionais, passou em 1949 a dirigir longas com O Menino de Cabelos Verdes/The Boy with Green Air, ousada ainda que irregular fantasia com mensagem anti-bélica e anti-racista. A alegoria, de fato, seria um elemento recorrente na obra posterior de Losey, porém pelos dois anos seguintes ele se concentraria em tensos e econômicos thrillers, frequentemente ambientados contra um pano de fundo de agitação moral e social: em O Fugitivo de Santa Marta/The Lawless, boias-frias chicano-americanos sofrem violência racista; em Cúmplice das Sombras/The Prowler>1, o amor de um policial por uma mulher casada levam-no ao assassinato; Noite Inolvidável/The Big Night uma análise efetivamente melodramática do crime adolescente. O olhar acurado de Losey para o detalhe e o ambiente social criou um entretenimento inteligente e excitante. Então, após realizar O Homem Que o Mundo Esqueceu/Stranger on the Prowl, na Itália,  tornou-se uma vítima da lista negra de McCarthy e mudou-se para a Inglaterra onde, por alguns anos, trabalhou sobre pseudônimo.

Apesar de sua obra inicial britânica ter sido grandemente indistinta, filmes como O Monstro de Londres/The Sleeping Tiger (sobre um criminoso psicopata), A Sombra da Forca/Time Without Pity (sobre um alcóolatra) e Por Amor Também se Mata/The Gypsy and the Gentleman revelarem seu continuado interesse em figuras marginais que, por sua própria presença, inflamam as tensões latentes já existentes dentro de uma sociedade ou relacionamento fechado; ao mesmo tempo, seu estilo visual se tornou ainda mais resolutamente barroco. Depois de dois íntegros além de superiores filmes de suspense criminal estrelados por Stanley Baker (Entrevista com a Morte/Blind Date e Armadilha à Sangue Frio/The Criminal>2, perspicaz estudo das traições e lealdades da vida prisional) ele embarcou em uma série de filmes mais notável por seu uso evocativo das paisagens e interiores que por sua mais esquemática e azeda visão das aspirações humanas. Eva/Eve mapeava a letal obsessão de um escritor galês casado por uma mulher sofisticada e sedutora numa Veneza invernal filmada de forma extravagante; Malditos/The Damned, uma ficção-científica apocalíptica  estrelado por teddy boys, um turista americano e uma escultora visionária na costa vitoriana de Weymouth; O Criado/The Servant>3 (o primeiro das diversas colaborações de Losey com Harold Pinter, e o primeiro, desde O Monstro de Londres, a ser estrelado por Dirk Bogarde, cuja reputação iria se beneficiar ao se tornar um ator regular de Losey) valorizando sua história de inversão de papéis de um  homem da elite de caráter fraco arruinado por seu mordomo calculista com um portentoso uso simbólico de espelhos e escadarias. Equilibrado de forma desajeitada entre um recuo sofisticado e o excessivo, o estilo de Losey frequentemente insinuava a alegoria e optava pela elaboração meticulosa às custas de uma verdadeira vitalidade.

Quando o diretor ganhou algo como uma reputação cult seus filmes se tornaram teimosamente irregulares. Pelo Rei e Pela Pátria/King and Country, no qual um soldado da I Guerra Mundial é executado por deserção, foi um previsível libelo anti-bélico; o thriller em cima da cultuada história em quadrinhos Modesty Blaisie, somente confirmou a ausência de senso de humor de Losey. Estranho Acidente/Accident>4 foi um drama desnecessariamente complicado, filmado de forma agressiva, sobre professores universitários adúlteros de Oxford; Boom! e Cerimônia Secreta/Secret Cerimony foram variações risíveis sobre o tema das relações claustrofóbicas que sofrem a intromissão de um estranho; No Limiar da Liberdade/Figures on a Landscape uma alegoria banal sobre dois fugitivos em busca da liberdade. Mais uma vez a direção detalhista de Losey chamava atenção para si própria, resultando menos em clareza que numa fria visão mecanicista do personagem. Mesmo o suntuoso O Mensageiro/The Go-Between>5,  sobre um jovem rapaz traumatizado pelo papel que involuntariamente desempenha num romance clandestino entre um fazendeiro e uma garota aristocrata na era edwardiana, era ancorado em portentosos lapsos sobre o futuro e um senso de conflito de classes  tão simplista quanto nada emocionalmente envolvente.

Ao longo dos anos 70, Losey parecia perder o prumo ainda mais fortemente; pretensioso, preciosista  e em alguns momentos desastrosamente tedioso, O Assassinato de Trotski/The Assassination of Trotsky e as versões de Casa de Bonecas/A Doll's House e Galileo, assim como A Inglesa Romântica/The Romantic Englishwoman fizeram pouco para melhor seu status. Ao seu mudar para a França, reviveria temporariamente sua reputação com Cidadão Klein/Mr.Klein, história perturbadora ainda que controversa de um homem na Paris ocupada pelos nazistas que se torna auto-destrutivamente obcecado por um judeu homônimo e com uma visualmente elegante versão de Dom Giovanni de Mozart;  porém Uma Estranha Mulher/La Truite, Les Routes de Sud e o excessivamente teatral A Sauna/The Steaming (realizado na Inglaterra e lançado postumamente) foi geralmente desconsiderado por todos com exceção dos mais fervorosos admiradores do diretor.

Muito frequentemente o gosto de Losey pela alegoria e seu uso excessivamente elaborado do simbolismo e da metáfora resultam em narrativas empoladas e uma constrangedora seriedade. Enquanto exilado, ele ocasionalmente teve o privilégio de observar a vida europeia e britânica por uma perspectiva estimulante; sua abordagem intelectual seca e esquemática da arte frequentemente significa que seus filmes foram lamentavelmente sem vida e acadêmicos.

Cronologia
Os primeiros filmes de gêneros de Losey suportam comparações com as obras de diretores de preocupação social como Kazan, Ray e Fuller, enquanto seus filmes ingleses são mais próximos dos filmes de arte europeus. Um admirador devoto de Brecht, pode ser comparado com figuras como Resnais, Chabrol, Antonioni, Visconti, Bertolucci e Roeg.

Leituras Futuras
The Cinema of Joseph Losey (Nova York, 1967), de James Leahy, Losey on Losey (Londres, 1967), de Tom Milney e Conversations with Losey (Londres, 1985), de Michel Ciment, oferece longas entrevistas.

Destaques
1. Cúmplice das Sombras, EUA, 1951 c/Van Heflin, Evelyn Keyes, John Maxwell

2. Armadilha à Sangue Frio, Reino Unido, 1962 c/Stanley Baker, Sam Wanamaker, Margit Saad

3. O Criado, Reino Unido, 1963 c/Dirk Bogarde, James Fox, Wendy Craig

4. Estranho Acidente, Reino Unido, 1967 c/Dirk Bogarde, Michael York, Stanley Baker, Jacqueline Sassard

5. O Mensageiro, Reino Unido, 1970 c/Julie Christie, Alan Bates, Dominic Guard, Margaret Leighton

Texto: Andrew, Geoff. "The Film Handbook". Londres: Longman, 1989, pp.173-5.

2 comentários:

  1. Você tem MÁ VONTADE com Losey,não leva em conta que teve que trabalhar em terra estranha até sob pseudônimo e não soube ver a preciosidade de "O CRIADO" sob vários aspectos importantes. Você deve gostar de filmes mais comerciais,não é meu caso que vejo muitas vezes bons filmes como Visconti,Losey e tanta gente boa até os últimos de Resnais e os cineastas antigos...

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  2. Caro, primeiro esse texto não é de minha autoria, é de um crítico britânico chamado Geoff Andrew e se trata de uma tradução, como pode ser observado abaixo. Segundo, gosto e desgosto de filmes comerciais e não comerciais. Costumo ter uma visão crítica inclusive sobre cineastas que admiro como Visconti, Rossellini, Godard, etc. Cada filme é um filme para mim. Devo admitir que a visão de Andrew sobre Losey é bastante arguta e sendo ele britânico deve observar com mais cuidado incongruências que nos passam batidas. Seja bem vindo, sugiro que não tome opiniões precipitadas e navegue mais pelo blog rsrs E tb deixe de lado o anonimato!

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