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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

The Film Handbook#47: Jean Cocteau


Jean Cocteau
Nascimento: 05/07/1889, Maisons-Lafitte, França
Morte: 11/10/1963, Milly la Forêt, França
Carreira: 1930-60

No cinema, Jean Cocteau encontrou o meio perfeito para retratar sua própria mitologia pessoal. Ainda que seu envolvimento com o cinema tenha sido irregular, espasmódico e grandemente negligenciado ao final de sua vida, suas imagens fantásticas, amadorismo bem conseguido e auto-preocupação contínua foram inspiradoras para a vanguarda e o underground.

Por volta de 1930, quando Cocteau realizou seu primeiro filme, ele já havia se estabelecido como poeta, romancista, dramaturgo e artista plástico.  Sangue de um Poeta/Le Sang d'un Poète>1, um "documentário realístico de eventos irreais" foi um retrato caracteristicamente romântico do artista estruturado como uma sucessão surreal de imagens centradas em uma mitologia privada: desejando imortalidade, o poeta, mártir de sua criatividade, deve primeiro atravessar o espelho para adentrar o mortal mundo onírico particular. Financiado como A Idade do Ouro/L'Age d'Or pelo Visconde de Noilles, essa celebração auto-indulgente dos artistas em geral (e, por conseguinte, de Cocteau em particular) tornam-o inferior ao filme de Buñuel, mas seu simbolismo robusto e bizarro é frequentemente surpreendente.

Apesar de Cocteau ter regularmente colaborado com outros como roteirista (frequentemente adaptando obras dele próprio) ele não voltaria a dirigir por muitos anos. Mesmo assim, A Bela e a Fera/La Belle et la Bête>2, uma versão ornamentada da clássica histórica com cenários e iluminação inspirados em Vermeer confirmaram seu entusiasmo pelas propriedades ilusionistas do cinema. Após transpor ao celuloide um par de peças (Águia de Duas Cabeças/L'Aigle à Deux Têtes, O Pecado Original/Les Parents Terribles), retornaria aos prazeres e agonias da vida artística observados em sua estreia. Orfeu/Orphée>3 atualiza de maneira idiossincrática o mito grego: um poeta se apaixona por uma bela princesa que demonstra ser sua própria morte; para recobrar da morte sua esposa Eurídice, ele deve atravessar um espelho e adentrar a Zona, uma melancólica Hades moderna reminiscente da Paris dominada pelos nazistas. Seus variados conceitos são criativamente apropriados - mensagens bizarras do além partindo do rádio de um carro, os mensageiros da morte como motociclistas em roupas de couro - e o filme, apesar de ser prejudicado pela atitude insistentemente pomposa em relação ao gênio criativo, é uma narrativa de intereresses individuais admiravelmente acessível, seus efeitos de câmera transformando eventos banais em extraordinárias imagens oníricas.

Após um divertido e engenhoso filme caseiro (A Vila Santo-Sospir), O Testamento de Orfeu/Le Testament d'Orphée>4 confrontava, de maneira elegíaca, os temas e obsessões de sua vida, com o próprio Cocteau como poeta viajante do tempo que encontra amigos e personagens ficcionais antes de desaparecer, desiludido com a sociedade moderna, em seu próprio mundo mítico. A indulgência prevalece outra vez, enquanto tanto as imagens quanto sua "narrativa" sejam mais obscuramente particulares que nunca.

A obsessão de Cocteau com a criatividade e a mortalidade é, em última instância, auto-celebrativa e trivial: a empreitada artística é uma questão de postura visionária enquanto a morte, despida do sofrimento e da decrepitude, é embeleza de forma romântica. De fato, os melhores "filmes de Cocteau" foram feitos pelos outros: Rossellini (A Voz Humana/La Voix Humaine), Franju (Thomas, o Impostor/Thomas, L'Imposteur) e, mais ainda, Melville (Les Enfants Terribles). De todo modo, a indiferença de Cocteau às convenções cinematográficas e o uso exuberante do cinema como um meio de auto-expressão neutraliza seu preciosismo estético.

Cronologia
Ele próprio influenciado (e ultrajado) pelos surrealistas, o estilo pessoal e independente de filmagem de Cocteau foi grandemente atraente para os diretores da Nouvelle Vague; igualmente, muitos poucos realizadores experimentais não sentiram sua influência. De fato, pode-se compará-lo com Kenneth Anger.

Leituras Futuras
Jean Cocteau (Nova York, 1969), de René Gilson. Cocteau on the Film (Nova York, 1964) é uma seleção de entrevistas.

Destaques
1. O Sangue de um Poeta, França, 1930 c/Lee Miller, Pauline Carton, Odette Talazac

2. A Bela e a Fera, França, 1946 c/Josette Day, Jean Marais, Mila Parely

3. Orfeu, França, 1950 c/Jean Marais, Maria Casarès, François Perier

4. O Testamento de Orfeu, França, 1954 c/Cocteau, Edouard Dermithe, Maria Casarès

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 57-8.

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