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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Filme do Dia: Belinda (1948), Jean Negulesco

Belinda (Johnny Belinda, EUA, 1948). Direção: Jean Negulesco. Rot. Adaptado:  Irma Von Cube & Allen Vincent, baseado na peça de Elmer Harris. Fotografia: Ted D. McCord. Música: Max Steiner. Montagem: David Weisbart. Dir. de arte: Robert M. Haas. Cenografia: William Wallace. Figurinos: Milo Anderson. Com: Jane Wyman, Lew Ayres, Charles Bickford, Agnes Moorehead, Stephen McNally, Jan Sterling, Rosalind Ivan, Dan Seymour.
Na costa da Nova Escócia, Belinda (Wyman) é uma surda-muda que é tratada como deficiente mental pelo próprio pai, Black (Bickford), e ridicularizada por todos da pequena vila de pescadores até a chegada do médico Robert Richardson (Ayres), que descobre uma capacidade enorme não desenvolvida, pela vida precária em que leva. Ainda que inicialmente céticos quanto aos progressos de Belinda, Black e sua irmã Aggie (Moorehead), observam o desenvolvimento de Belinda com a ajuda de Robert. Certo dia, no entanto, quando todos se encontram afastados, Belinda sofre violência sexual por parte de Locky (McNally), noivo de Stella (Sterling), ajudante de Robert, por quem nutre uma paixão secreta. Quando Robert descobre que Belinda se encontra grávida, uma crise se instaura na família, mas que é atenuada com o nascimento do bebê. Numa visita na surdina ao bebê, Locky deixa evidente ser o pai e numa discussão com Black, mata-o. Belinda segue a vida, agora com o convite de Robert, que se transferiu para Toronto, de ir viver com ele logo mais. Stella tenta dissuadir Belinda a deixar o filho com ela, algo que Belinda retruca enfaticamente. Locky então invade a casa e pretende levar o filho à força, sendo morto por Belinda. No julgamento, Belinda somente é inocentada após a declaração de Stella, de que Locky era o pai da criança e havia invadido a casa.
Esse comovente melodrama antecipa corajosamente muito dos dramas que posteriormente tematizariam  com relação a pequenas comunidades ou mesmo cidades de grande porte contra indivíduos considerados como de “perfil” diferente, numa subliminar crítica do fascismo existente nas relações sociais cotidianas, que se tornaria implícita (Douglas Sirk) ou explicitamente (Fassbinder, Lars Von Trier) o cimento do melhor do gênero. Sua corajosa, mesmo que não explícita, abordagem do tema do estupro, enfrentado de forma aberta somente na década seguinte com Anatomia de um Crime, demonstra uma maturação crescente com relação a temáticas mais complexas e questionadoras dos valores sociais mais amplos que sucede a Segunda Guerra Mundial e que logo será tolhida pelas perseguições do Macarthismo. Wyman vive uma Belinda doce e destituída de maldade, que se torna evocativa de personagens-vítimas clássicos da história do cinema (O Enigma de Kaspar Hauser, O Homem Elefante), mas não deixando de demonstrar ser algo além de uma vítima passiva quando mata o homem que a estuprara, matara o seu pai e pretendia levar seu filho. O elenco consegue emprestar o tom correto para cada um de seus personagens, com a magnanimidade do personagem vivido por Lew Ayres, a sofrida e seca, mas longe de destituída de compaixão Aggie de Moorehead, o inescrupuloso Lock de McNally, mas sobretudo talvez o rude Black, de Bickford que, juntamente com Wyman, torna seu personagem marcante. Talvez o que exista de mais tocante, ao final de contas, é que sua narrativa evidencia o quanto a mudança do status quo de um personagem marginal não poderá se dar sem uma série de reações, que terminam por levar ao sangue e a dor, numa transformação que bem poderia servir como metáfora para conflitos sociais mais amplos em sociedades grandemente conservadoras, tal como presente igualmente em Sob o Domínio do Medo (1971), de Sam Peckinpah. As locações, que fazem – e bem – da California a província canadense também são fundamentais na composição do provincianismo do vilarejo canadense, como haveriam de ser posteriormente no filme de Peckinpah ou Lars Von Trier (Ondas do Destino, mesmo que Dançando no Escuro se aproxime mais do filme de Negulesco, que dirigiria diveras produções escapistas coloridas e em tela larga na década seguinte).  Warner Bros. 102 minutos.


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