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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Filme do Dia: O Delito (1947), Alberto Lattuada

O Delito (Il Delitto di Giovanni Episcopo, Itália, 1947). Direção: Alberto Lattuada. Rot. Adaptado: Suso Cecchi D’Amico, Aldo Fabrizi, Federico Fellini, Alberto Lattuada & Piero Tellini, a partir do romance Giovanni Episcopo, de Gabriele D’Anunzio. Fotografia: Aldo Tonti. Música: Felice Lattuada. Montagem: Giulianna Attenni. Dir. de arte: Dario Cecchi. Cenografia: Luigi Gervasi. Figurinos: Gino Sensani. Com: Aldo Fabrizi, Yvonne Sanson, Roldano Lupi, Ave Ninchi, Nando Bruno, Alberto Sordi, Francesco De Marco, Amedeo Fabrizi, Gino Cavalieri, Folco Lulli.
Roma, passagem do século XIX para o XX. Giovanni Episcopo (Aldo Fabrizi) é um solitário funcionário público que leva sua vida sem maiores supreseas, morando a quase duas décadas numa humilde pensão. Certa noite enverga uma casaca feita especialmente para ocasião e decide sair. Diante de um cabaré é influenciado pelo malevólo Giulio Wanzer (Lupi), que passa então a rapidamente dominar sua vida. Primeiro, fazendo com que troque sua humilde pousada por uma menos familiar, onde trabalha a sensual Ginevra (Sanson), assim como manipula a herança recebida por seu pai. Giulio foge para a Argentina, quando a polícia descobre sua negociata com uma jóia roubada. Ginevra desaparece da pousada e da cidade. Giovanni vai a seu encontro e a pede em casamento. Ela, no entanto, não abandona sua vida dissoluta e a troca pela modorrência que enxerga em Giovanni. Ela engravida. A criança, mais apegada com o pai, adoece. Giulio Wanzer retorna da Argentina e pretende levar Ginevra consigo. Após empurrar o enfermo Ciro (Amedeo Fabrizi), ele desperta tal fúria em Giovanni, que este o assassina. Após vagar a esmo com a criança volta a sua velha pousada. Acolhido, logo recebe a visita da esposa. A notícia já se encontra estampada no jornal. Giovanni decide se entregar por conta própria.
Lattuada consegue construir uma atmosfera decididamente persecutória e mesmo kafkaniana  ou extraída de um conto de Allan Poe na primeira metade do filme, onde Episcopo se vê completamente coagido e não consegue impor praticamente nenhuma restrição aos avanços da figura  malévola de Wanzer. Ainda que a leitura efetuada se encontre longe do realismo que então vivenciava seus dias de apogeu na produção contemporânea neo-realista, talvez não seja má hipótese se observar a trajetória de D’Annunzio como uma reprodução, em última instância, do temor conservador do abandono dos hábitos burgueses ou da atração irracional que pode levar a perda de referenciais de respeitabilidade associados à figura social, numa situação de colapso ou quase colapso pessoal; nesse sentido, não seria infeliz uma comparação com a célebre adaptação O Anjo Azul (1930), de Von Sternberg. Lattuada inicia e finda o filme com a mesma câmera subjetiva. No início descrevendo de forma relativamente lenta o cotidiano pouco colorido do protagonista. No final, apresentando seus passos finais para se entregar voluntariamente à polícia. Caráter cíclico que também acompanha o belo still a partir de um momento do filme que emoldura os créditos iniciais e finais. Episcopo, ao final de contas, paga o preço por ter arriscado sair de sua comedida rotina e quase parecemos escutar nas entrelinhas que foi ao virar as costas para a gente simples (porém medíocre segundo Wanzer) mas correta, assim como os pequenos passatempos que incluíam uma pequena tartaruga que ele perdeu parte de sua alma. Essa, de fato, resistiu às intempéries, vicissitudes e humilhações pessoais. O retrato que é traçado de Wanzer ou de Ginevra não poderia ser mais antipático ou vulgar. Nesse sentido a releitura de tais contos morais por Fassbinder, com Lola, faz com que nos identifiquemos menos com a figura da “virtude” associada a códigos sociais  tidos como mais exemplares, do que com a figura transgressora da mulher que cimentou o caminho para o cadafalso dos homens que ousaram atravessar a linha demarcatória que separa os dois mundos, através de sentimentos e não apenas do desejo sexual em estado bruto. Fabrizi, ator (e co-roteirista) seminal do cinema italiano do período, incorpora bem seu amuado e ressentido Episcopo, assim como os outros dois personagens principais vividos respectivamente por Lupi e Sanson, atriz de origem grega em início de carreira. Assim como foi comum em produções dirigida por Luigi Zampa e Roberto Rossellini, o compositor da trilha sonora também é um membro da família, no caso aqui pai do realizador, enquanto o garoto que vivencia o filho de Fabrizi, é de fato seu filho. Nino Rota, também colaborou com a trilha, mesmo que não tenha sido creditado. Lux Film/Pao Film para Lux Film. 94 minutos.

2 comentários:

  1. Estou te convidando para participar do Novo Agregador de Links de Conteúdo ZicaLinks.
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    Um forte abraço

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  2. Já postei o banner de seu agregador em destaque em meu blog, Alessandro. Abraço.

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