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terça-feira, 28 de julho de 2015

Filme do Dia: A Carta (1999), Manoel de Oliveira

A Carta (A Carta, Portugal/França/Espanha, 1999). Direção:  Manoel de Oliveira. Rot. Adaptado: Manoel de Oliveira, baseado no romance La Princesse de Clèves, de Madame de la Fayette. Fotografia: Emmanuel Machuel. Montagem: Valérie Loiseleux. Dir. de arte: Ana Vaz da Silva. Com: Chiara Mastroianni, Pedro Abrunhosa, Antoine Chappey, Leonor Silveira, Françoise Fabian, Anny Romand, Stanislas Merhar, Luís Miguel Cintra, Catherine Deneuve.
        A jovem aristocrata Catherine de Clèves (Mastroianni), foi educada pela mãe distante dos costumes modernos. Rejeitando o assédio de François de Guise (Merhar), da sua idade,  casa-se com um homem mais velho (Chappey). Porém, ainda recém-casada, numa apresentação do cantor de rock português Pedro Abrunhosa, apaixona-se à primeira vista. Só tem coragem de revelar seus segredos a amiga de infância, hoje freira (Silveira). A força para resistir a tentação que representa Pedro é selada com a declaração da mãe em seu leito de morte, que pede que Catherine não traia a honra da família e siga o exemplo das mulheres de seu tempo. Com a insistente presença de Pedro em visitas a residência dos Clèves, assim como o susto que a mulher reage à notícia sobre um acidente com o cantor, o marido faz com que Catherine confesse seu amor não consumado, o que provoca um desgosto mortal para o mesmo, que sucumbe em pouco tempo. Sentindo-se grandemente culpada e, ao mesmo tempo, temendo que a paixão que Pedro nutre por ela se dissolva após a união de ambos, Catherine prefere abdicar de seu amor, mesmo sob os protestos de sua confidente freira e desaparecendo de Paris. Abrunhosa, que havia se tornado vizinho de Catherine, após a morte do marido,   tenta em vão através de Madame de  Chartres (Fabian), amiga da família, notícias da mesma. Após um certo tempo, Catherine escreve da África uma carta para sua amiga freira, contando suas experiências de assistência social que provocaram profundas marcas e um programado retorno para a casa de campo.
       Essa adaptação de uma narrativa do século XVII para o cenário contemporâneo,  pouca  diferença acarreta, no sentido de que o universo do potencial “triângulo amoroso” guia-se pelo moralmente sublime da fonte literária, considerada como o primeiro grande romance da literatura francesa. Se no caso de Catherine, educada segundo um modelo grandemente tradicional, tal modelo seria, em último caso,  justificável, no caso de seu marido e, principalmente de Pedro Abrunhosa (cantor português de sucesso que o faz o papel de si próprio) soa forçoso. Porém esse termina por ser um dos trunfos do filme, que não possui preocupações realistas, e que subliminarmente parece apontar que certos temas e preocupações éticas podem transcender (ou, pelo menos, assim deveriam, para a mãe de Catherine, e alguns poucos eleitos) a história. O tom ascético com que Oliveira apresenta a narrativa (que evoca a dos filmes de Bresson) consegue amortecer a própria inclusão de cenas do cantor no palco e o choque que representam com relação aos cenários aristocráticos e a deshistoricização da trama, embora a seqüência final tivesse sido mais bela se concluída com a leitura da carta pela religiosa (num intimismo que lembra o da seqüência final de Os Vivos e os Mortos)  e não com uma música interpretada por Abrunhosa. De qualquer forma, mesmo com a opção de explorar sem maiores adaptações a moralidade de duas sociedades sob a distância de três séculos, uma das qualidades do filme, raras no cinema,  é a recusa completa ao cinismo e da ironia na descrição dos personagens que o compõem, mesmo que sob o risco do ridículo. Marina Vlady e Sophie Marceau já haviam vivido a personagem de Cathérine de Cléves em duas adaptações anteriores do romance, dirigidas por Jean Delannoy e Andrzej Zulawski, em 1960 e 1999 respectivamente. Wanda Films/Gémini Films/Madragoa Filmes. 107 minutos.


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