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sexta-feira, 10 de julho de 2015

The Film Handbook#31: Jacques Becker


Jacques Becker
Nascimento: 15/09/1906, Paris, França
Morte: 20/02/1960, Paris, França

Comparado a muitos de seus contemporâneos, Jacques Becker é amplamente subestimado. E é muito provável que onde ele é vigoroso - um estilo visual elegante mas que não se impõe, um interesse pelos personagens mais que pelo enredo - é que o tenha levado a ser negligenciado pela crítica.

Becker circulou por uma variedade de empregos antes de seu interesse pelo cinema ter crescido por um encontro com King Vidor e por sua amizade com Renoir, de quem foi assistente ao longo dos anos 30. Após diversos falsos inícios, a carreira de Becker como diretor se inicia com Dernier Atout, uma empolgante comédia de suspense detetivesco. Porém foi com Mãos Vermelhas/Goupi Mains Rouge, um engenhoso e sombrio melodrama sobre furtos e assassinato que introduziu seu interesse em grupos de personagens interagindo com um meio geográfico e social cuidadosamente definido. Muito da obra posterior do diretor pode ser vista como um tributo a própria Paris: Nas Rendas da Sedução/Falbalas diz respeito ao universo da moda, Antonio e Antonieta/Antoine et Antoinette é o primeiro de diversas comédias conjugais espirituosas; Eterna Ilusão/Rendez-Vous de Juliette>1, ambientado parcialmente em teatros e clubes de jazz da Margem Esquerda, foi um olhar incomumente simpático a desencantada juventude do pós-guerra francês; e Vivamos Hoje/Édouard et Caroline>2, uma comédia quase destituída de enredo sobre uma perturbação menor entre recém-casados, impressionante por sua evocação detalhada de seu próprio apartamento humilde, assim como de um salão da sociedade que visitam na tentativa de impulsionar a carreira do marido.

Amores de Apache/Casque d'Or>3 novamente diz respeito a Paris, dessa vez o submundo "apache" dos anos 1890. Porém a generosidade em relação aos seus personagens desvia a atenção do crime violento em direção a um romance trágico e infeliz que termina no cadafalso. Numa evocação calorosa e nostálgica da cidade pintada pelo Renoir pai o breve amor idílico entre Serge Reggiani e Simone Signoret ainda sobrevive, através das memórias da heroína, Madame Guillotine. O crime figura novamente em Grisbi, Ouro Maldito>4, um melancólico filme de suspense -gangster a respeito dos planos do envelhecido Max-le-Menteur de Jean Gabin de se aposentar da vida criminosa após um último golpe. Mais uma vez, o enredo é menos importante que o personagem: cenas de Max degustando um jantar ou uma recordação favorita são centrais a análise do envelhecimento, e quase que ganha precedência sobre as sequencias de ação tensas e excitantes.

Diversos projetos desapontadores - Ali-Babá/Ali Baba et les 40 Voleus, As Aventuras de Arsène Lupin/Les Aventures d'Arsène Lupin e, herdado de Max Ophüls, Os Amantes de Montparnasse/Les Amants du Montparnasse, sobre Modgliani - seguiram-se antes do último e melhor filme de Becker. Em A Um Passo da Liberdade/Le Trou>5, uma narrativa econômica e soberbamente detalhada da fuga de uma prisão condenada ao fracasso, o interesse do diretor reside não na miséria da vida carcerária, mas na camaradagem não explicitada e respeito mútuo que cresce entre os homens enquanto o túnel se afunila em direção à liberdade. O ambiente é claustrofóbico mas as observações não sentimentais de Becker - ele gostava de se ver como um entomologista - desenvolvem-se numa consideração final de fé no amor e dignidade humanas.

Muito frequentemente Becker tem sido considerado como pouco mais que um artesão menor e eficiente. No entanto, seu traquejo com os atores, sua preferência por personagens comuns e histórias plausíveis, assim como seu continuado fascínio pelos temas da amizade, lealdade e traição o marcam como um realizador profundamente atrativo.

Cronologia
A experiência de Becker com Renoir, claramente influenciou sua própria obra, apesar de sua admiração por Ouro e Maldição/Greed de Von Stroheim também sugira um interesse pelo realismo pessimista. Grisbi antecipou as análises concisas e melancólicas de Melville sobre a honra entre criminosos, sendo Becker um dos poucos diretores franceses admirados pelos realizadores da Nouvelle Vague. Seu filho Jean é hoje um bem sucedido diretor, frequentemente de filmes de ação.

Leituras Futuras
French Cinema Since 1946, vol.1 (Londres, 1970), de Roy Armes.

Destaques
1. Eterna Ilusão, França, 1949 c/Daniel Gélin, Maurice Ronet, Bernard Lajarrige

2. Vivamos Hoje, França, 1951 c/Anne Vernon, Daniel Gélin, Jacques François

3. Amores de Apache, França, 1952 c/Simone Signoret, Serge Reggiani, Claude Dauphin

4. Grisbi, Ouro Maldito, França, 1954 c/Jean Gabin, René Dary, Paul Frankeur

5. A Um Passo da Liberdade, França, 1960 c/Michel Constatin, Jean Keraudy, Philippe Leroy

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp.20-1.

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