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domingo, 12 de julho de 2015

Filme do Dia: O Mensageiro do Diabo (1955), Charles Laughton


O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter, EUA, 1955). Direção: Charles Laughton. Rot. Original: James Agee & Charles Laughton, baseado no romance de  Davis Grubb. Fotografia: Stanley Cortez. Música: Walter Schumann. Montagem: Robert Golden. Dir. de arte: Hilyard M. Brown. Cenografia: Alfred E. Spencer. Figurinos: Jerry Bos & Evelyn Carruth. Com: Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish, James Gleason, Evelyn Varden, Peter Graves, Don Beddoe, Billy Chapin, Sally Jane Bruce, Gloria Castillo.
        Ben Harper (Graves) é preso após ter roubado dez mil dólares. Ele conta que o dinheiro será para os filhos, John (Chapin) e Pearl (Bruce) e não deve ser revelado nem para a mãe deles, Willa (Winters). No presídio, fala durante o sono e revela o segredo para o “Reverendo” Harry Powell (Mitchum), perigoso psicopata, antes de ser enforcado. Powell, quando sai da prisão, vai para a vila onde mora a família Harper e logo conquista a simpatia das mulheres. Desde o início, no entanto, John desconfia de que Powell encontra-se apenas atrás do dinheiro, o que ele não nega.  Willa flagra uma discussão de Powell com Pearl, porém radicalmente convertida as orações do pastor ao ponto de sublimar o sexo, tenta acreditar que ele não casou com ela pelo dinheiro. Na mesma noite é morta e jogada juntamente com o carro no rio. Bird Steptoe (Gleason), um velho pescador, vê o carro mas prefere não contar nada à polícia, com medo de ser incriminado. Com o desaparecimento da mãe e a pressão cada vez maior de Powell para que eles contem onde se encontra o dinheiro – guardado na boneca de pano de Pearl – as crianças fogem. Tentam a proteção de Steptoe, mas esse se encontra completamente alcoolizado, e eles fazem uso de um pequeno barco sendo abrigados por uma velha senhora que cuida de crianças solitárias, Rachel Cooper (Gish). Powell logo sabe do paradeiro deles, mas é expulso da casa, pela presença da espingarda que Cooper lhe aponta, quando John conta a ela que não se trata de seu pai. Porém ele mantém-se nas proximidades, o que obriga que Cooper mantenha uma longa vigília noite adentro e chame a polícia, que o prende, repetindo a mesma cena que ocorrera com o pai de John, o que provoca uma revolta a ponto de ele tentar entregar a boneca para Powell, sendo descoberto o dinheiro.
           Esse filme talvez possa ser considerado, juntamente com Cidadão Kane (1941), como a mais aclamada produção jamais produzida por Hollywood. Único filme do magistral ator Laughton, apresenta uma sedutora narrativa em forma de conto de fadas onde citações bíblicas e uma fotografia em tons marcadamente influenciados pelo expressionismo alemão, porém retrabalhados para os interesses próprios do cineasta, com menor submissão ao original que o do cinema noir, criam um universo lírico como raras vezes apreciado na tela. Mitchum, como uma encarnação do mal que é tanto marcadamente corpórea como também sobrenatural – se igualando misteriosamente a escuridão da noite quando uma garota traz um lampião – realiza uma poderosa interpretação, adjetivo que ainda pode ser melhor aplicado a decana Gish (intérprete desde Griffith) e Winters, no melhor momento de sua carreira. Várias são as sequências memoráveis: a da fuga no rio sendo observada do ângulo dos animais ribeirinhos (possível influência para o também pouco prolífico e cultor de metáforas de fundo religioso cineasta Terrence Malick, em filmes como Além da Linha Vermelha); a dos cabelos de Willa esvoaçantes na água do rio, quase confundindo-se com as algas marinhas próximas; a do momento em que, no meio da vigília noturna, Powell inicia um hino religioso que Rachel, como que levemente tentada pelo mal, também canta ou ainda a que Willa exorta publicamente seus pecados, afirmando que o marido só assassinara duas pessoas para sustentar seus vícios. Curiosamente Powell exerce sua influência principalmente entre as mulheres, sendo que tanto John como Walt Spoon, o comerciante, ao contrário de sua esposa, resistem à sua sedução. A única mulher que lhe resiste é a incomum senhora Cooper, que vive a reclamar do sentimentalismo feminino, o que parece equiparar a pessoa do reverendo a uma sexualidade bestial e os  riscos que essa pode acarretar ao desejo feminino incontido – personificado de forma mais explícita na figura de Ruby, uma adolescente que sai com homens, e que se apaixona de forma quase doentia por Powell. No final, as crianças trocam seus presentes de natal  com a velha senhora. O quarto de Willa foi visivelmente influenciado pelos cenários de O Gabinete do Dr. Caligari (1919) de Wiene. National Film Registry em 1999. United Artists. 93 minutos.


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