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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Filme do Dia: Afraid to Die (1960), Yasuzô Masumura





Afraid to Die (Karakkaze Yarô, Japão, 1960). Direção: Yasuzô Masumura. Rot. Original: Hideo Ando & Ryuzo Kikushima. Fotografia: Hiroshi Murai. Música: Tetsuo Tsukahara. Montagem: Tatsuji Nakashizu. Dir. de arte: Takesaburo Watanabe. Com: Yukio Mishima, Ayako Wakao, Keizo Kawasaki, Eiji Funakoshi, Takashi Shimura, Yoshie Mizutani, Michiko Ono, Jun Negami.

Takeo Asahina (Mishima) se encontra jurado de morte, mesmo na prisão, por ter atentado contra a vida do chefão rival de sua gangue, Yusaku Sakara (Negami). Ele escapa de ser morto, porém continua vivendo às escondidas. Asahina rompe com a cantora de cabaré Masako (Mizutani) logo ao sair da prisão. Ele se envolve com Yoshie Koizumi (Wakao) que deseja que ele abandone o mundo do crime. Yoshie engravida dele. Ele tenta fazer que ela aborte, mas ela resiste a todo custo e decide ter o filho. Takeo rompe com uma das regras de ouro dos homens da Yakuza, apaixonar-se. Isso fica evidente quando ele procura livrar o irmão de Yoshie, Shoichi (Kawasaki), líder comunista que foi feito refém pela gangue rival. O envolvimento afetivo de Takeo levará ao seu trágico final.

Distante dos melhores resultados conseguidos com suas fábulas morais sobre o Japão (Giants and Toys) e sobre a juventude e o amor (Beijos), Masumura, no entanto, não demonstra temor em ousar por gêneros e estilos diversos, como a própria diversidade dos dois filmes anteriores citados já havia demonstrado. Mesmo que aqui a trama seja mais próxima de refletir clichês do gênero policial há muito sedimentados por seu apelo melodramático – o bandido cruel que possui um forte núcleo de bonomia dentro de si e que através da família possui chance de se regenerar, possibilidade evidentemente não concretizada (tal como, por exemplo, em Lúcio Flávio), o estilo com que tudo é narrado é bastanto seco e anti-sentimental. Como exercício de anacronismo se poderia imaginar que a melhor utilização de recursos como a trilha sonora e personagens mais bem construídos se atingiria um nível de atmosfera, estranhamento e falseamento próximo do universo dos pequenos criminosos posteriormente efetivado por Fassbinder. Há uma ênfase ainda maior em referências sexuais pelo viés histriônico – se em Giants and Toys se faz uma alusão pouco velada ao desejo das mulheres japonesas por homens ocidentais dizer respeito a peculidade anatômica dos homens orientais, aqui a um número musical em que a banana se torna o pretexto para comentários explicitamente fálicos. A figura de mulher aqui, ao contrário dos outros (sobretudo Giants and Toys) se rende aos estereótipos da submissão à uma virilidade violenta – Yoshie é conquistada através nada menos de um estupro – e uma fidelidade à toda prova, que inclui o próprio risco de vida. Como é habitual nesse tipo de filme a figura de fatalidade representada pelo protagonista, que a certo momento afirma não saber outra coisa na vida que o crime, somente possui uma breve esperança de redenção através da mulher que ama, que provoca alguns poucos momentos de relaxamento na eterna tensão e adrenalina, ainda que contida (não se abusa, longe disso, da espetacularidade), porém tal esperança tem prazo curto para acabar. Estréia de Mishima, célebre escritor e dramaturgo japonês,  como ator de cinema. Masumura adaptaria em 1972 uma obra de Mishima dois anos após seu suicídio.  Daiei Studios. 96 minutos.


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