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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Filme do Dia: À Flor do Mar (1986), João César Monteiro

À Flor do Mar (Portugal, 1986). Direção e Rot. Original: João César Monteiro. Fotografia: Acácio de Almeida. Montagem: Marina Carvalho, Leonor Guterres & Manuela Viegas. Dir. de arte: Jean-François Auger. Figurinos: Mariana Leireles. Com: Laura Morante, Phillip Spinelli, Manuela de Freitas, Teresa Villaverde, Georges Claisse, Sérgio Antunes, Rita Figueiredo, Conceição Senna.
Laura (Morante) é uma viúva que passa temporada com os filhos numa velha fortaleza portuguesa onde o ex-marido se suicidou um ano atrás. Acaba encontrando na praia Robert (Spinelli), desacordado numa balsa. Sua origem desconhecida e o recente atentado contra um membro da OLP em Portugal tornam-o um suspeito. Ignorando os riscos, Laura o acolhe em sua casa e um grande amor nasce nela. Sua irmã, Sara (Freitas), entre cética e assustada, não acha que ela tenha feito uma boa opção, principalmente após a invasão da casa por um grupo armado que pretendia capturar Robert. Porém, Robert, que aparentemente faz parte de um grupo de contrabandistas de armas, consegue escapar ileso e parte deixando saudades em todos da fortaleza.
Este notável filme de Monteiro, talvez o seu melhor, consegue driblar uma certa veia experimentalista um tanto quanto estéril presente em muitas de suas produções, por doses de um certo classicismo moderno a la Antonioni. Nessa direção, toda a apurada articulação estética e sutis brincadeiras com a narrativa, introduzindo propositalmente situações lacunares, assim como toda a corte entre Laura e Robert, que se desenvolve na primeira metade do filme, permeada por um denso vazio existencial. Vazio, que como em Antonioni é observado de fora de seus personagens, nunca estruturando os planos a partir do olhar dos mesmos e com um rigor de composição e enquadramento da imagem não menos que admirável. Há um pouco de frescor em tudo que remete ao Godard dos primeiros filmes, e Monteiro não se furta em evidenciar tal influência, citando Acossado, a certa altura. Em meio ao drama do casal, há uma sugestão de ruptura brusca com a estrutura prévia da narrativa – com o surgimento do grupo que persegue Robert (no qual Monteiro faz uma ponta), que não chega a se concretizar. Repleto de tempos mortos e desprezo pelos cacoetes narrativos (os diálogos entre Sara e Laura remetem, boa parte das vezes, a pequenos chistes em que se fazem referências a obras literárias ou cinematográficas), o filme, ao mesmo tempo, incorpora um frágil equilíbrio entre a homenagem e a sátira do repertório do cinema clássico, com bem mais sutileza e maturidade que o Godard de Acossado. Maturidade, enfim, que não é desmentida pelo seu belo e melancólico final, ao som de Bach, em que Sara consola Laura pelos muitos anos que ainda viverão sem amor, num comentário que parece igualmente endereçar o olhar de Monteiro para a esterilidade afetiva e de experiência concreta do universo burguês, sempre apoiado na razão e segurança. Morante, bela e tragicamente contida, destaca-se em meio as já bem sucedidas interpretações do elenco como um todo. Monteiro aqui abdica do recurso dos diálogos literários, empreendendo ao menos nesse plano, uma parcial aproximação com elementos naturalistas.Madragoa Filmes. 143 minutos.

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