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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Filme do Dia: Corisco & Dadá (1996), Rosemberg Cariry

Corisco & Dadá (Brasil, 1996). Direção e Rot. Original: Rosemberg Cariry. Fotografia: Ronaldo Nunes. Música: Toinho Alves & Quinteto Violado. Montagem: Severino Dadá. Dir. de arte: Jefferson Albuquerque & Zé Tarcísio. Figurinos: Renato Dantas. Com: Chico Diaz, Dira Paes, Chico Alves, Regina Dourado,  Maíra Cariry, Virginia Cavendish, Chico Chaves, B. de Paiva, Teta Maia, Denise Milfont, Luís Carlos Salatiel.
1927. Sertão da Bahia. Corisco (Diaz), um dos mais temidos cangaceiros, chega numa propriedade para acertar contas com um velho homem (Paiva). Acaba se dando por satisfeito em não matá-lo mas carregar consigo sua filha adolescente (Cariry), e violentá-la. Inicialmente avessa aos carinhos de Lampião, Dadá (Paes) acabará por se tornar sua fiel companheira. Juntos enfrentam tanto os reveses da seca, perseguições das volantes, violência contra comunidades sertanejas e perca de três filhos, quanto os momentos de alegria como quando são registrados por Benjamin Abraão, cinegrafista recomendado pelo Padre Cícero e as festas e troças realizadas pelo bando, assim como seus encontros com o bando de Lampião. A morte de Lampião, pressentida por Dada, torna-se igualmente um presságio para o próprio fim de Corisco. Com a morte do terceiro filho, Corisco pratica atos de sanguinolência que ultrapassam seus próprios limites, sendo admoestado por Dadá. Após um enfrentamento no qual sai ferido e tem vários de seus companheiros mortos ou desertados, Corisco abandona o cangaço e vai viver com Dadá e sua filha como qualquer outro sertanejo. É morto pelo chefe da polícia volante Rufino, que o perseguia há muitos anos.
Narrado a partir dos dias contemporâneos à produção pelo que seria a filha do casal de cangaceiros, cuja fala pontua toda a narrativa e apenas se revela ao final sua identidade. Ainda que irregular, demonstra uma aproximação do cineasta do domínio de uma narrativa mais afinada com o grande público e mais bem sucedida que sua empreitada posterior,  Lua Cambará, com a mesma dupla principal como atores,  cujo padrão de produção ainda mais bem conseguido não esconde um certo academicismo inócuo. Aqui mesmo longe de não apresentar soluções inadequadas, como o núcleo contemporâneo do enredo, que soa inverosímil tanto enquanto estilo narrativo quanto no incômodo do descompasso entre a empostação de Dourado diante dos rostos e posturas dos populares que a cercam, tampouco inexiste o oposto. Nesse sentido, são dignos de nota a seqüência da perseguição de Dadá por Corisco logo ao início, a mais bela do filme, quanto sua explicitação do convívio tão próximo entre morte e vida no sertão, representados por breves planos de detalhes tanto de plantas quanto de animais da região, quanto igualmente dos esqueletos dos últimos. Ou ainda a própria explicitação do sanguinário sem maiores eufemismos, no qual aos seres humanos não resta uma sorte muito diversa da brutalidade praticada ou sofrida pelos animais. Dimensão que já se incorpora desde a mais tenra infância, através de crianças que ganham de presente as órbitas de um cabrito recém-extraídas para fazerem de bolinhas de gude ou que brincam com os ossos dos animais mortos. Talvez a maior virtude do filme seja o de evitar qualquer pré-julgamento moral das ações de seus personagens, evitando tanto retratá-los enquanto bárbaros como heroicizá-los pura e simplesmente – se a volante é descrita resumidamente como patética em seus anseios de glória e riqueza, tampouco essa visão reducionista chega a ser um empecilho, no sentido de que nem mesmo chegam a ter seus perfis psicologicamente elaborados. Por outro lado, demonstra a força da mulher dentro do grupo, encarnado por uma Dadá que se encontra longe de ser uma mera vítima de sua condição feminina. Numa das sequências de diversão do bando, o Cego Aderaldo vê sua projeção de uma Paixão de Cristo  do início do século ser interrompida pelos tiros do próprio bando de cangaceiros contra a tela em que Jesus era vítima das torturas. Enquanto outra leitura “realista” foi realizada por Massaini com seu Corisco, Diabo Loiro (1969), o personagem foi retratado por outro viés, épico e pouco afeito a qualquer verosimilhança rasteira, imortalizado por Gláuber Rocha, com seu Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), ao qual Cariry presta seu tributo, sem muito efeito dramático, ao fazer menção aos rodopios do personagem vivido por Othon Bastos no filme de Gláuber. Nos créditos iniciais, cenas mais longas que as habitualmente vistas dos registros cinematográficos realizados por Benjamin Abraão com Lampião, tema para outra produção contemporânea, Baile Perfumado. Cariry Prod. Artísticas para Riofilme. 103 minutos.


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