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domingo, 13 de maio de 2018

The Film Handbook#167: Hans-Jürgen Syberberg

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Hans-Jürgen Syberberg
Nascimento: 08/12/1935, Nossendorf, Pomerânia, Alemanha
Carreira (como diretor): 1965-1997

Grandemente destacado e original dentre os realizadores alemães que conquistaram proeminência  durante os anos 70, Hans-Jürgen Syberberg é um espalhafatosamente excêntrico de escassa consideração para a maior parte de seus contemporâneos. Seu tema - a continuada esquizofrenia da cultura alemã ao longo do último século - corresponde a escala épica e complexidade de seu estilo visual e narrativo idiossincráticos.

Enquanto Syberberg ainda vivia na Alemanha Oriental, um encontro na juventude com Brecht permitiu que ele filmasse o Berliner Ensemble em 8 mm: encontro que provou ser uma influência decisiva na obra  madura do realizador. Por volta dos idos dos anos 60, ele trabalhava na televisão bávara, e entre 1965 e 1969, realizaria diversos documentários de longa-metragem sobre atores como Fritz Kortner e Romy Schneider. Em 1968 realizaria seu primeiro longo ficcional, Scarabea  (uma controvertida e aparentemente surreal adaptação de um conto de Tolstói) seguido por San Domingo (filme semi-documentário sobre a rebelião juvenil de Munique com enredo extraído de Kleist). Porém foi com Ludwig - Réquiem para um Rei Virgem/Ludwig - Requiem für einen Jüngfraulichen König>1, que pela primeira vez anunciou seu estilo maduro. Uma biografia decididamente diferente do monarca bávaro recluso e visionário - que preferia construir castelos extravagantes e fantásticos e agir como patrono de Wagner a se desincumbir de suas atividades políticas - o filme consiste de tableaux grandemente estáticos no qual o diálogo e os visuais reforçam o continuado conflito entre o Romantismo e a racionalidade na sociedade alemã. Ludwig (interpretado por um adulto e uma criança vestida como adulto) falam de Brecht no passado e são anfitriões de um Hitler dançarino de rumba e de um Bismarck numa motocicleta; uma cena aparentemente etérea do rei caindo adormecido sob os esforços de Wagner culminam com a queda de uma neve descaradamente artificial; planos documentários de turistas modernos nos palácios de Ludwig servem como pano de fundo à ação. Lento, barroco e grandioso, o efeito é, antes de tudo, engenhoso e cativante, tanto enquanto análise lúcida da psiquê da nação quanto uma colagem visualmente impressionante.

Ludwig foi somente o princípio das jornadas épicas de Syberberg pela história alemã. Foi seguido de O Cozinheiro de Ludwig/Theodor Hierneis oder Wie Man Ehem. Hofkoch Wird, uma visita guiada pelos castelos de Ludwig, emprestando ênfase especial a um ator-narrador que frequentemente desliza para o personagem do cozinheiro epônimo; e Karl May, um estudo do romantismo imperialista alemão como corporificado e observado pelo popular escritor de aventuras,  no qual os atores da era nazista interpretam a maioria dos papéis. As Confissões de Winnifred Wagner/Winnifred Wagner und die Geschichte des Hauses Wahnfried von 1914-1975, igualmente, foi uma épica entrevista de cinco horas com a nora do compositor, sem qualquer remorso de sua amizade com Hitler (que patrocinou o Festival de Bayreuth que ela organizou), proporcionando uma sombria reflexão sobre a relação entre arte e política; enquanto Hitler - Um Filme da Alemanha/Hitler -  Ein Film aus Deustchland>2, a parte final da trilogia iniciada por Ludwig e Karl May, foi um ensaio de sete horas sobre a capacidade permanente da Alemanha para o nazismo. Ainda mais repleto de camadas que Ludwig, sofreu com sua ausência de clareza, ainda que cenas tais como a de Hitler, vestindo uma toga, emergindo da tumba de Wagner exerçam considerável poder e demonstrem a rica imaginação visual do diretor.

Não menos indulgente, ambicioso ou efetivo foi Parsifal>3, uma versão da ópera de Wagner filmada inteiramente em um cenário planejado como uma gigantesca máscara mortuária do compositor; típico da visão de Syberberg foi sua mistura entre passado e presente, mito e história, teatro e cinema. De fato, Syberberg parece ter tomado as teorias de Brecht de encenação ao seu extremo absoluto, renunciando inteiramente a ilusão da realidade por uma fusão de formas artísticas que constituem um cinema  intelectualmente exigente e visualmente suntuoso. Se seu senso de auto-importância é problemático, possui mesmo assim uma inteligência e engenho singulares.

Cronologia
Além de Brecht, figuras como Georges Méliès, Eisenstein, Welles, Godard e Warhol podem ser observados como possivelmente tido uma influência sobre Syberberg. De seus contemporâneos alemães, Alexander Klüge e Jean-Marie Straub talvez suportem comparações mais próximas. 

Leituras Futuras
New German Cinema (Londres, 1980), de John Sandford

Destaques
1. Ludwig - Réquiem para um Rei Virgem, Al. Ocidental, 1972 c/Harry Baer, Balthasar Thomas, Peter Kern 

2. Hitler - Um Filme da Alemanha, Al. Ocidental, 1977 c/Heinz Schubert

3. Parsifal, Al. Ocidental, 1981 c/Michael Kutter, Edith Clever, Karin Krick

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman,1989, pp. 278-9.