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sábado, 19 de maio de 2018

Filme do Dia: A Flor do Deserto (1962), Sergei Paradjanov


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A Flor no Deserto (Tsevtok na Kamne, URSS, 1962). Direção: Sergei Paradjanov. Rot. Original: Vadim Sobko. Fotografia: Sergei Revenko & Lev Shtifanov. Montagem: M. Ponomarenko. Dir. de arte: Mikahil Rakovsky. Figurinos: O. Yablonskaya. Com: Lyudmila Cherepanova, Boris Dmokhovski, G. Karpov, I. Kirilyuk.
Lyuda (Cherepanova) se afasta chorosa da família para ir supervisionar os trabalhos de uma mina a milhares de distância. Lá, torna-se objeto da paixão de Griva (Karpov), que se ressente da divisão que houve na pequena comunidade após a inserção de uma seita de fanáticos religiosos. Griva se aproxima da seita apenas para ficar próximo de Lyuda, mas a própria Lyuda perceberá que o líder da seita  se aproveita de sua posição para tentar se casar com ela.
Não por acaso esse, como seu primeiro longa-metragem, do ano anterior, foram renegados posteriormente por Paradjanov. Há uma forte presença dos preceitos realistas socialistas senão em termos imagéticos (se é que estes existiram) na própria trama, para não mencionar os elementos de fundo, como o próprio processo produtivo. Se o herói chega a ter seus momentos de fraqueza, associados a vodka e a paixão aparentemente não correspondida, não faltarão corretivos  da figura paternal que evoca uma inflexibilidade mais próxima de preceitos artísticos ainda mais rígidos – deve-se lembrar que já se aproxima o período do degelo de Kruschev. Os momentos musicais também se encontram lá, porém mais tímidos e orgânicos com o restante do enredo que seus equivalentes mais fervorosamente propagandísticos (observados ironicamente pelo documentário Assim Dançou o Comunismo). É através de referências diretamente associadas ao universo de vida de seus personagens que o filme procura representar o amor de Griva por Lyuda, dando-lhe como presente a flor incrustada sobre a pedra de milhares de anos – evidente e piegas metáfora para a própria Lyuda. O ressentimento de Griva pelo reconhecimento negado pelos companheiros, cegos pela submissão religiosa, serve como uma luva  para o  tosco servilismo aos ditames ideológicos de plantão do regime em contraposição a um Griva que canta as maravilhas do mundo como produzidas pela própria mão humana. Quando sonha em ser reconhecido socialmente, Griva se encontra sendo homenageado em um reino por seus feitos, e todos riem com os rostos cobertos de fuligem provocada pelo carvão em brasa. Ou seja, até mesmo nesse deslocamento para um mundo fabular mais pueril, é o objeto material que possibilita a vida dos personagens que irá ter um destaque fundamental. Mais importante, no entanto, é que essa sequência, juntamente com o herói rolando bêbado por uma montanha de hulha, serão os únicos indícios do talento visual que destacará internacionalmente o realizador. Na sequência da queda,  observa-se o rodopio feérico da câmera fazendo as vezes do ponto de vista de Griva. Ainda que nesse último caso, tais preciosismos visuais, sobretudo o bem mais convencional que a imagem é apresentada de ponta-cabeça por representar a perspectiva do herói ao chão se desloquem na carreira do realizador futuramente menos para cacoetes estilísticos a partir da técnica do que para a própria composição dos elementos de cena diante da câmera (A Cor da Romã, A Lenda da Fortaleza Suram). Filmstudio Aleksandr Dovshenko. 71 minutos.


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