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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Filme do Dia: L'Argent (1983), Robert Bresson


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L’Argent (L’Argent, França, 1983). Direção: Robert Bresson. Rot. Adaptado:  Robert Bresson, baseado no conto de  Leo Tolstoy. Fotografia: Pasqualino De Santis & Emmanuel Machuel. Montagem: Jean-François Naudon. Dir. de arte: Pierre Guffroy. Figurinos: Monique Dury. Com: Christian Patey, Caroline Lang, Sylvie Van den Elsen., Vincent Risterucci,  Didier Baussy, Andre Cler,   Marc-Ernest Fourneau,  Bruno Lapeyre.
     Os jovens Norbert (Fourneau) e Lucien (Risterucci), que trabalham em uma loja de fotografia,  passam notas falsificadas para Yvon Targe (Patey), que quando procura comprar algo com elas é  preso pela polícia. Ele busca culpar Lucien, mas este finge não o reconhecer. Targe recebe o perdão do juiz (Lapeyre), porém sua situação se torna problemática após perder o emprego e ser pressionado pela mulher Elise (Lang), a tomar uma posição, já que também possuem uma filha de quatro anos. Lucien é flagrado pelo dono da loja (Baussy) adulterando o preço das máquinas fotográficas para ficar com algo prá si e é despedido. Targe é convidado a participar de um assalto a banco como motorista. Porém a polícia o prende. É condenado a quatro anos de prisão. Sua mulher o visita mas não fala nada. Em suas cartas lhe revela posteriormente que a filha deles, uma das esperanças de reconstruir a vida quando saísse da prisão, morrera em uma traqueostomia. Ela própria diz que irá mudar sua vida e não pretende mais manter contato com ele. Targe tenta o suicídio com os comprimidos que diariamente lhe são dados e ele esconde em sua cela. Lucien, agora rico com uma série de golpes que realizou em caixas eletrônicos, envia um cheque como recompensa ao dono da loja de fotografia, que se emociona, pois acabara de falar mal dele. Também se demonstra disposto a ajudar Targe. É condenado pelo mesmo juiz e se encaminha para a mesma prisão onde se encontra Targe. Procura se redimir junto a Targe, propondo um plano de fuga para ambos. Targe não concorda e espera a conclusão da pena, escutando o barulho provocado pela tentativa de fuga de Lucien. Quando solto, a primeira coisa que realiza é assaltar a pensão que fingia querer se instalar, assassinando a dona e roubando todo o dinheiro. É acolhido por uma senhora (Van Den Elsen) que vê retirando o dinheiro  do banco, mesmo com a oposição do marido, inquieto com a ignorância sobre seu destino. Ele conta seu crime a velha senhora, que afirma que se fosse Deus perdoaria a todos. Targe ganha a confiança do cachorro e torna-se amigo da velha senhora, demonstrando sua indignação pelo fato dela viver apenas em função de trabalhar para o marido e para a filha inválida, o que ela diz não se importar. Um dia que ela sai, ele revista a casa e nada encontra. Certa madrugada, porém, pega o machado e assassina a família. Num bar próximo se entrega a polícia.
Apesar do enredo potencialmente melodramático, o filme se afasta anos-luz de qualquer coisa do gênero, aproximando-se antes da fria narrativa apresentada por alguns cineastas do Novo Cinema Alemão como Por Que Deu a Louca no Sr. R? (1970), de Fassbinder, e de um distanciamento brechtiano. A odisseia da perda da fé em si próprio, a partir da perda dos referenciais para reconstruir a mesma, por parte do protagonista – a mulher e a filha perdidas – e a negação da possibilidade de perdão ao agente que provocou sua queda – Lucien – ou de uma tentativa de construir uma  nova vida após a prisão – a  generosidade da velha senhora – marcam o tom do filme, fortemente cristão e inspirado na obra de Tolstói. Ironicamente a transposição da ação para a França contemporânea e a utilização do dinheiro como veículo-símbolo da maldade humana – a nota falsa que quando passa para as mãos de Targe liberta o espírito de Lucien – não parecem ser gratuitas. A amargura, a solidão existencial e a rejeição de qualquer possibilidade de voltar a comungar sentimentos sociais, criando uma lógica de valores extremamente idiossincrática, são bastante semelhantes as do personagem de Não Matarás (1988) de Kieslowski que, como Bresson, foi realizador de parábolas humanistas cristãs. Como em outros de seus filmes, percebe-se a grande função dramática representada pelas elipses, como no caso dos assassinatos e da tentativa de suicídio de Targe, assim como a recusa ao psicologismo.  EOS Films/France 3 Cinéma/ Marion's Films. 85 minutos.

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