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terça-feira, 1 de maio de 2018

Filme do Dia: Alexandria...New York (2004), Youssef Chahine


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Alexandria...New York (Alexandrie...New York, 2004, Egito/França). Direção: Youssef Chahine. Rot. Original: Youssef Chahine & Khaled Youssef. Fotografia: Ramses Marzouk. Música: Yehia El Mougi. Montagem: Rashida Abdel Salam. Dir. de arte: Hamed Hemdan. Figurinos: Monia Fath Elbab. Com: Mahmoud Hemida, Ahmed Yehia, Youssra, Youssra El Lozy, Lebleba, Hala Sedki, Magda Al Khattib, Nelly Karim.
Alexander (Yehia), filho de Ginger (Youssra), tona-se consciente que seu verdadeiro pai é um célebre cineasta egípcio, Yehia (Hemida), que está sendo homenageado com uma retrospectiva de sua obra em Nova York. Primeiro bailarino do New York Ballet, Alexander não pretende se tornar amigo do pai. Ginger procura conciliar os interesses contando ao filho toda a história de sua paixão por Yehia. Quando estudantes em Nova York na década de 1940, seu namoro e sua carreira promissora como ator foram abruptamente interrompidos pelas dificuldades financeiras da família de Yehia, que necessitava que ele retornasse ao Egito. Ginger, após despontar como promessa, prostitui-se. Depois casa-se com um ator. O casamento sucumbe rapidamente e ela reencontra Yehia, com quem tem uma noite de amor que gera Alexander. Alexander procura o pai para buscar uma reconciliação, mas eles acabam discutindo, por conta da arrogância de Alexander a respeito de sua condição como americano e o ferrenho nacionalismo de Yehia.
Chahine demonstra mais uma vez a sua habitual engenhosidade em mesclar melodrama rasgado e política, com fortes pitadas autobiográficas. Ainda que o interesse político do realizador em demonstrar o sentimento ambíguo que nutre pelos Estados Unidos seja tão ou menos forte que um certo ajuste de contas repleto de ressentimento e egocentrismo, o filme apresenta uma louvável habilidade no trato com a narrativa folhetinesca. Chahine não se esquiva do melodramático e  kitsch limítrofe do mau gosto, como nos números de dança – uma tradição do cinema árabe – nas juras de amor eterno ou na trilha sonora. O resultado final, no entanto, é de uma coerência envolvente. Seus traços autorais, compondo um universo visual todo próprio, revelam-se igualmente na mescla constante entre presente e passado, fantasia e realidade e se a direção de atores se encontra longe de um nível de interpretação sofisticada, casa-se como uma luva para os propósitos do cineasta, em que todos os personagens expressam seus sentimentos do modo mais transparente possível. Enquanto reflexão sobre o auto-centramento crescente dos Estados Unidos em relação ao resto do mundo, tensão presente ao longo  do filme e personificada na relação entre pai e filho, a quem o pai afirma ter ficado endurecido por sua vivência americana,  o filme faz uma referência, ao mesmo tempo direta e bela, quando o alter-ego do cineasta compara a suavidade dos passos de Fred Astaire com a brutalidade de Rambo. Curiosamente, mesmo utilizando todo um repertório de chavões do melodrama, o filme se recusa a desfazer o nó do conflito entre pai e filho ao final, sugerindo uma necessidade de maior reflexão e maturidade, de ambas as partes, como igualmente entre o Oriente e Ocidente, afastando-se do tom conciliatório e utópico de outra visão de um cineasta de fora sobre os Estados Unidos efetivou contemporaneamente a essa produção, Terra da Fartura (2004), de Wim Wenders. Involuntariamente, o filme espelha o narcisismo do artista que o dirigiu – chegando ao ponto de incluir a sua homenagem na 50ª edição do Festival de Cannes além de um improvável discurso particular que o reitor da escola de teatro americana fez no dia de sua diplomação – que, no entanto, casa bem com o estilo arrebatado e emocional do filme. O mesmo pode ser dito da reconstituição, pelo próprio cineasta de sua versão de Salomé, filme que o seu alter-ego chegara a ficar uns poucos momentos assistindo a realização antes de ser expulso pelos seguranças, ganhando uma coloração autoral própria na sua própria insipidez de recursos e até mesmo de atributos coreográficos. O que há de mais involuntário, certamente, é o retrato de submissão da mulher egípcia, encarnada pela atual esposa do cineasta. Uma das curiosidades irônicas é o tributo às avessas a Nova York, numa adaptação da clássica New York, New York. Ognon Pictures/MISR International Films/France 2 Cinéma/Gimages/Canal +/CNC/Ciné Cinémas. 128 minutos.

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