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sábado, 21 de março de 2015

Filme do Dia: La tierra quema (1964), Raymundo Gleyzer



La Tierra Quema (Argentina, 1964). Direção, Rot. Original e Montagem: Raymundo Gleyzer. Fotografia: Rucker Vieira.

Curta interrompido, como Cabra Marcado para Morrer de Coutinho, pela eclosão do regime militar no Brasil. A influência do Cinema Novo, na luz estourada, e particularmente na evidente referência a Vidas Secas tampouco ocultam suas diferenças com a produção brasileira equivalente contemporânea, demarcada sobretudo pela necessidade de um tom didático mais acentuado, já que dirigida para o público argentino. E por um caráter de encenação que soa por demais artificioso, através do uso de voz over como canal de expressão para os “diálogos”, mais próximos de um monologismo também vinculado a obra de Nélson Pereira dos Santos, assim como ao original de Gracialiano Ramos. Há um aberto choque entre tais vozes encenadas e o caráter bem mais realista das imagens captadas. Não menos artificiosas são as cenas em que marido e mulher “capinam” na terra árida. Seu caráter de aberta contestação, surge na voz de um narrador que exclama sobre a “vergonha das Américas” que é o Polígono das Secas e os dados estatísticos aterradores sobre o número de mortos diariamente. Sua banda sonora ainda inclui uma soturna e pouco original trilha incidental composta especificamente para o filme e uma canção de apelo religioso que fala em Jesus e parece ser posta em cheque pela última imagem do filme, de um criança a virar pelo avesso a imagem tradicional do mesmo, enquanto apelo simbólico para a recusa do fatalismo conformista propiciado pelo consolo da crença religiosa. Ainda que a maior pretensão do filme seja a de denúncia, tampouco Gleyzer descura de algumas imagens de forte apelo estético, como o plano de uma plantação. Não é improvável que seu título faça uma referência ao clássico neo-realista A Terra Treme (1947), de Visconti. 12 minutos.

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