CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quinta-feira, 12 de março de 2015

The Film Handbook #14: Akira Kurosawa

Akira Kurosawa
Nascimento: 23/03/1910, Tóquio, Japão
Morte: 06/09/1998, Setagaya, Tóquio, Japão
Carreira (como diretor): 1943-1993

Desde que Rashomon introduziu o cinema japonês às plateias ocidentais no Festival de Cinema de Veneza de 1951, o status de Akira Kurosawa como o mais famoso diretor do país tem sido assegurado. Seu sucesso reside no fato que sua obra, invulgarmente acessível, é imbuída de um humanismo, embora algumas vezes corriqueiro,  frequentemente provocadora de emocionalidade profunda.

Educado como pintor no estilo ocidental, Kurosawa adentrou a indústria do cinema  como assistente de diretor para a companhia Toho. Em 1943 realizaria sua própria estreia como diretor  com A Saga do Judô (Judo Saga), memorável sobretudo por focar na relação entre mestre e aprendiz, motivo recorrente ao longo de sua carreira. Ao longo da década a característica marcante de sua obra foi a variedade, tanto de escolha do objeto (um clássico nô em Os Homens Que Pisaram na Cauda do Tigre (They Who Step on the Tiger's Tail), o conflito entre um gangster e um médico alcóolatra em O Anjo Embriagado (Drunken Angel), o trabalho da polícia no suspense Cão Danado/Stray Dog) e em sua técnica visual: cortinas, montagem acelerada e uma série de enquadramentos dramáticos e efeitos de iluminação todos revelavam um comando confiante de seu meio por parte do diretor. Porém foi Rashomon>1, que primeiro chamou a atenção do público internacional - uma algo simples e simplória tese sobre a relatividade da verdade, sua história de estupro e assassinato como observado por várias testemunhas, suas narrativas conflitantes coloridas pela ganância e orgulho, torna-se uma ainda mais frágil asserção de fé na natureza humana. É notável  seu suntuoso trabalho de câmera e evidente deleite na implacável e animalística energia de Toshiro Mifune, o ator predileto de Kurosawa.

Ao longo dos anos 50, Kurosawa alternou entre filmes de época  e outros com temáticas mais provocadoramente contemporâneas, ao mesmo tempo refinando sua já considerável técnica e reconhecendo sua dívida tanto à literatura russa quanto aos filmes de John Ford. O Idiota (The Idiot) e Ralé (Donzoko) foram sensíveis adaptações de Dostoievski e Górki respectivamente, transpostos para o Japão moderno. Muito mais interessante, no entanto, foram Viver (Living)>2 e Os Sete Samurais (The Seven Samurai)>3. O primeiro, uma lenta e tocante história de um funcionário de baixo escalão de dar sentido a sua vida (ele está morrendo de câncer) transformando um terreno baldio da cidade em um parque para as crianças, apresenta Kurosawa em sua verve mais liberal; uma mescla de realismo social e poesia humanista serve para condenar a burocracia moderna e enfatizar a importância de atos de heroísmo modestos e cotidianos. Semelhantemente elegíaco, ainda que completamente diferente, em termos de temática, Os Sete Samurais é um autêntico épico tanto em sua dimensão quanto em sua caracterização, com uma maltrapilha classe de samurais - uma classe condenada de guerreiros - sacrificando suas vidas em uma batalha final para defenderem uma vila de aldeões da pilhagem de bandidos. Inspirado no respeito pelos conceitos japoneses tradicionais de honra e pelo western, Kurosawa combina cenas melancólicas e contemplativas com a irrupção de ações arrebatadoras e violentas, seus maneirismos visuais (o uso repetido da teleobjetiva e rápidos travellings e panorâmicas) e controle magistral de uma luta mortal em meio a chuva torrencial e enlameada.

Após o soturno Anatomia do Medo (I Live in Fear, melodrama no qual a paranoia de um homem de uma guerra atômica leva sua família a repudiá-lo como louco), Trono Manchado de Sangue (Throne of Blood)>4, transpôs Macbeth para o Japão feudal com impressionante resultado. Valendo-se das tradições do nô (faces brancas como máscaras, gestos estilizados) teve como clímax a morte visualmente surpreendente do senhor de guerra samurai, seu corpo com armadura se transformando numa obscena almofada de alfinetes ao ser trespassado por inúmeras flechas. Na verdade, desde então, com a exceção de Homem Mau Dorme Bem (The Bad Sleep Well, sobre corrupção no mundo dos grandes negócios) e Céu e Inferno (High and Low, sobre o sequestro do filho de um magnata), ambos filmes de ação contemporâneos com inclinação liberal - Kurosawa se restringiu grandemente a filmes de ação de época, frequentemente caracterizados por um senso de humor refrescante e amoral. A Fortaleza Escondida (The Hidden Fortress) introduziu elementos de paródia no gênero samurai, desenvolvimento que se repete em Yojimbo>5 e Sanjuro, nos quais o preguiçoso mercenário vivido por Mifune desenvolve um frio cinismo (no primeiro filme sendo contratado por duas famílias em uma rixa de aldeia, mas simplesmente os permite destruir a si próprios) com tal estilo que Leone roubou tanto a caracterização básica quanto o enredo para o seu primeiro filme da "trilogia dos dólares". Embora O Barba Ruiva (Red Beard)>6, também fosse histórico seu retrato longo, complexo e, por fim, comovente da educação de um médico na humildade e no auto-sacrifício sob as ordens de um superior mais velho proporcionou um retorno ao humanismo auto-consciente de seus primeiros anos. Por volta dessa época, no entanto, quando comparado a realizadores japoneses mais jovens, Kurosawa começava a ser considerado distante das realidades contemporâneas e levou alguns anos até que completasse seu próximo longa, o fracassado e fascinante Dodeskaden - O Caminho da Vida (Dodeskaden)>7. Esse drama no estilo de Ralé sobre os sonhos e desapontamentos dos pobres e doentes habitantes de uma favela em meio ao lixo, é memorável por seus experimentos surreais desajeitados mas ambiciosos com as cores e o simbolismo. Pouco após, em 1971, Kurosawa tentou sem sucesso se suicidar.

Realizado alguns anos após na União Soviética, Derzu Uzala>8 demonstrava um retorno à forma: mesmo em estilo considerado fora de moda, sua história da determinação de um caçador siberiano para sobreviver às adversidades da velhice e ao frequentemente hostil mundo natural foi uma aventura épica e excitante e um invulgarmente plausível retrato da bondade humana; certamente suas cenas de ação (de forma notável a construção de um abrigo durante uma nevasca ártica) revelam o senso de composição e ritmo de Kurosawa em toda sua força. Um retorno ao Japão, no entanto, foi menos bem sucedido:  Kagemusha, A Sombra de um Samurai (Kagemusha), um extravagante drama de época no qual um ladrão é forçado a tomar o lugar de um rei guerreiro cujo duplo é ele, somente para se tornar enredado nos horrores da guerra, foi prejudicado por uma manipulação algo esquemática das plateias, enquanto Ran>9 foi uma visualmente esplêndida mas, fora isso, nada notável adaptação de Rei Lear, impressionante mais por suas dimensões (uma nação inteira mergulhada no caos pela loucura de senhor de guerra samurai) que por qualquer acuidade ou originalidade (mesmo alguns o tendo visto como algo autobiográfico).

Graças a um olhar pictórico e uma habilidade para extrair poderosas performances de atores (particularmente Mifune e Takashi Shimura) a reputação de Kurosawa como um dos melhores diretores japoneses permanece assegurada; além do que, ao assimilar gêneros e estilos ocidentais, conquistou raro sucesso como um artista universalmente popular. Se em seus dramas mais deliberadamente humanistas, seu sentimentalismo parece algumas vezes artificial e piegas, seu sentido para a ação e para a autenticidade histórica revelam um talento que se compraz quanto transcende as imitações de gêneros. Seu melhor trabalho certamente mescla precisão psicológica, sutileza narrativa e bravura visual com extraordinário resultado.

Genealogia
Normalmente trabalhando dentro dos gêneros tradicionais japoneses, Kurosawa também foi influenciado pelo romance russo e por Ford e Renoir; reconhecia Mizoguchi como favorito dentre os diretores japoneses. Por sua vez, influenciou fortemente o western moderno; Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven), de John Sturges foi uma refilmagem de Os Sete Samurais, enquanto Leone e Eastwood inspiraram-se em suas obras do início dos anos 60. Outros diretores japoneses dignos de nota durante os anos 50 e 60 incluem Kon Ichikawa, Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo e Tadashi Imai.

Leituras Futuras
The Films of Akira Kurosawa (Berkerley, 1970), de Donald Richie.

Destaques
1. Rashomon, Japão, 1950 c/Toshiro Mifune, Masayuki Mori, Machiko Kyo

2. Viver, Japão, 1952 c/Takashi Shimura, Nobuo Kaneko, Kyoko Seki

3. Os Sete Samurais, Japão, 1954 c/Takashi Shimura, Toshiro Mifune, Yoshio Yaba

4. Trono Manchado de Sangue, Japão, 1957 c/Toshiro Mifune, Isuzu Yamada, Minoru Chiaki

5. Yojimbo, Japão, 1961 c/Toshiro Mifune, Eijiro Tono, Takashi Shimura

6. O Barba Ruiva, Japão, 1965 c/Toshiro Mifune, Yuzo Kayama,Yoshio Tsuchiya

7. Dodeskaden - O Caminho da Vida, Japão, 1970 c/Yoskitaka Zushi, Noburo Mitani, Tomoko Yamazaki

8. Derzu Uzala, URSS, 1975 c/Maxim Munzuk Yuri Solomine

9. Ran, Japão, 1985 c/Tatsuya Nakadai, Satoshi Terao, Peter

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 155-7.


Nenhum comentário:

Postar um comentário