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terça-feira, 24 de março de 2015

Filme do Dia: 1860 (1934), Alessandro Blasetti

1860 (Itália, 1934). Direção: Alessandro Blasetti. Rot. Adaptado: Alessandro Blasetti, Emilio Cecchi & Gino Mazucchi, a partir do conto de La Processione Incontro a Garibaldi, de Mazucchi. Fotografia: Anchise Brizzi & Giulio De Luca. Música: Nino Medin. Montagem: Alessandro Blasetti, Ignazio Ferronetti & Giancito Solito. Dir. de arte: Vittorio Cafiero & Angelo Canevari. Cenografia: Tulio Gramantieri. Figurinos: Vittorio Nino Novarese. Com: Giuseppe Gulino, Ainda Bellia, Gianfranco Giachetti, Mario Ferrari, María Denis, Ugo Gracci, Vasco Creti, Totó Majorana.
Carmine (Gulino) é mais um dos camponeses oprimidos pelo regime bourbon na Sicília que se engaja na luta com outros garibaldinos contra as forças da monarquia e em defesa da república. Sua devotada esposa, com quem recém-casou, Gesuzza (Bellia), que o acompanha para onde vai, fica desesperada quando descobre que ele é o enviado ao nordeste italiano, por seu próprio sogro, para levar notícias sobre a situação calamitosa na Sicília, que não conseguirá ressistir mais que alguns dia, se não tiver a liderança de Garibaldi e o apoio de suas tropas por lá. Após uma decisão inicial de ir a outro local, Garibaldi decide por partir para a Sicília, para o júbilo dos revoltados sicilianos. Carmelo se engaja no exército e após um sanguinário combate, comemora com Rosuzza a expectativa de paz e de construção de uma vida nova.
A primeira metade desse filme talvez se encontre como a mais inspirada realização do celebrado Blasetti. Nela  Blasetti reconstrói sobretudo através do aspecto visual, de cores predominantemente esbraquinçadas, a crítica situação dos rudes campesinos da Sicília. A ausência de trilha musical convencional, substítuida a determinado momento por cantos patrióticos e a relativa ausência de sentimentalismo se somam a fluidez visual de seu trabalho de câmera, um afinado senso de enquadramento e a modesta e virtuosa absorção de efeitos oriundos das vanguardas da década anterior, presentes em momentos como o que Carmelo parte sozinho de canoa, e o observamos por trás e por frente, a partir da opção de montagem para a cena (Blasetti, foi co-montador do filme). Tampouco se pode esquecer o pathos conseguido no momento da despedida e a facilidade espontânea com que a lágrima desce sobre o rosto de Rossuza. Tudo, de certo modo, da utilização da paisagem, passando pelo uso de dialetos e línguas estrangeiras (alemão, francês) em respeito a fala original dos personagens, assim como o uso de um protagonista amador que não voltaria a efetivar outro filme, solução bastante tão interessante a seu modo, quanto a de Ladrões de Bicicleta (1947), de De Sica, acabam por emprestar a suas limitações dramáticas uma franqueza, sobretudo em seu sorriso, dificilmente conseguida por atores profissionais, o mesmo valendo para sua esposa, antecipando algumas das soluções mais festejadas pelo ciclo neo-realista do pós-guerra. Dito isso, infelizmente o filme não consegue manter a sua vivacidade até o final, tornando-se crescentemente convencional, inclusive em sua função de propaganda – é mais que evidente a analogia entre a figura proscrita de Garibaldi e sua proposta de ditadura sob as benesses da monarquia e Mussollini – por mais que tampouco tenha agradado a maior parte dos fascistas, incomodados com os tons “demasiado realistas” com que Blasetti descreve a sua Sicília, repleta de construções que remetem a presença de um modo de vida arcaico, com suas calças cobertas por couro semi-cru e casas de pedra. Destaque para o modo exclusivamente vitimizado com que os sicilianos são descritos, convidando o espectador a se tornar simpático a causa deles, já desde o início, com o cruel assassinato do garoto irmão de Gesuzza e nunca apresentados em atitudes mais ofensivas como, por exemplo, examinar os corpos pelo chão e espetá-los com lanças, como os rivais.  A “garantia” nos créditos iniciais de uma “direção artística” a cargo do realizador,  supõe, ao menos em termos de Itália, semelhante prestígio ao vivenciado por Griffith em sua época, quando fazia uso de tal estratégia. Sua versão original conta com 7 minutos adicionais. Società Anonima Steffano Pittaluga/Società Anonima Cines para Società Anonima Steffano Pittaluga. 73 minutos.


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