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sábado, 12 de julho de 2014

Filme do Dia: Nuvens de Verão (1959), de Mikio Naruse



Nuvens de Verão (Iwashigumo, Japão, 1959). Direção: Mikio Naruse. Rot. Adaptado: Shinobu  Hashimoto, a partir do romance de Tsutou Wada. Fotografia: Masao Tamai. Música: Ishirô Saitô. Montagem:  Eiji Ooi. Dir. de arte:  Satoro Chûko & Makoto Sono. Com: Chikage Awashima, Yôko Tsukasa, Isao Kimura, Keiju Kobayashi, Kumi Mizuno, Ganjirô Nakamura, Haruko Sugimura, Hiroshi Tashikawa.

Um jornalista de Tóquio, Okawa (Kimura), buscando realizar uma pesquisa sobre os efeitos da reforma agrária  reencontra Yaé (Awashima), viúva de guerra que lhe conta a história do irmão, Wasuké (Nakamura), que fora um dia grande proprietário, mas que agora sobrevive de forma bastante difícil da sua pequena porção de terra, além de ter que lidar com as mudanças sociais as quais não compreende ou concorda, que observa no comportamento dos filhos. Shinji (Takachiwa), o que mais havia tido apoio da família, avisa para o pai que irá se mudar e morar por conta própria. Hatsuji (Kobayashi), o mais submisso, que continua trabalhando em sua propriedade, não se furta em ir contra o desejo do pai de efetuar uma grande festa para o seu casamento, passando a morar com sua esposa sem nenhuma comemoração. Jun, por sua vez, quer ser mecânico na cidade e não casar com a prima, como o pai queria, para manter a propriedade para uma geração futura. Após ter prometido que jamais se desfaria de sua terra, Wasuké é forçado a vender sua terra.

Retrato típico da configuração, algo melancólica, da destruição dos valores tradicionais e sua substituição por aqueles que são movidos, via de regra, pelo dinheiro e por empregos que não mais se encontram vinculados à agricultura – ainda que tal lógica se encontre diretamente vinculada aqui ao plano de reforma agrária, que é observada algo isoladamente como força motriz de todas as mudanças em curso, numa observação obliquamente conservadora. Com tais mudanças, a lógica patriarcal se vê deslocada e cada vez mais ausente de poder de decisão, seja em relação ao filho que decide partir, mesmo contra a vontade paterna, da residência familiar ou do filho que engravida à futura noiva do irmão. Ou ainda o filho que decide casar sem que seja efetuada qualquer cerimônia, algo impensável para o velho e cada vez mais cansado patriarca. O filme, no entanto, e talvez acertademente, evita apresentar sua morte, tal como Ozu o fizera com a mãe em Era uma Vez em Tóquio.  Bastante clássico, com fusões a demarcarem a passagem dos eventos, algumas indicando temporalidade, outras mudança de espaço, possui o seu momento mais intensamente emocional quando o patriarca finalmente vende sua terra para auxiliar Shinju, seu filho mais jovem – a dinâmica dos filhos e desse, que parte para buscar a carreira de mecânico em Tóquio, é evocativa, ainda que sob registro diferenciado, da família igualmente provinciana e numerosa de Rocco e Seus Irmãos de Visconti, ainda que aqui se fique preso à perspectiva da observação da decadência da província, mais que do período de adaptação conflituoso na metrópole. Outro momento pungente, nesse sentido, é o que a namorada de um dos irmãos, sente que lhe perderá, quando esse recebe a transferência de seu emprego também para Tóquio, afirmando que mesmo que ele continue a morar lá, sua vida e interesses agora girarão a partir da órbita da cidade. O pretexto do jornalista faz com que a história-moldura acabe servindo como facilidade para apresentação das diversas subtramas. Toho Co. 128 minutos.

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