Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#156: Libertad Lamarque
LIBERTAD LAMARQUE. (Argentina/México, 1908-2000). A "rainha do tango" Libertad Lamarque foi a maor estrela do cinema e televisão argentinos e mexicanos, aparecendo enquanto atriz e/ou cantora em mais de setenta filmes e novelas. Nascida em Rosario, na idade de sete anos já atuava para o público. Sua primeira aparição profissional se deu com doze anos. Em 1922, sua família mudou-se para Buenos Aires, após o que começou a trabalhar no teatro. Posteriormente gravaria canções, e foi a primeira argentina a ser ouvida em uma banda sonora de um filme, no caso Adiós Argentina (1930), produzido por Federico Valle. Ela canta um tango, "Adiós Argentina" no, de outro modo, filme silencioso. O filme não foi um sucesso, e seu segundo filme, o primeiro filme argentino completamente sonoro, ¡Tango! (1933), realizado pela Argentina Sono Film, foi também um fracasso por conta da qualidade pobre do som e da interpretação. No entanto, o terceiro filme de Lamarque El Alma de Bandoneón (1935), no qual interpreta o principal personagem feminino e canta a canção-título (composta por Enrique Santos Discépolo) foi um grande sucesso.
Para seu filme seguinte, Ayúdame a Vivir (Ajuda-me a Viver), o segundo a ser produzido pela Sociedad Impresora de Discos Electrofónicos (S.I.D.E.), escreveu o roteiro e interpretou a protagonista. Quando o roteiro de Lamarque foi rejeitado por Mario Sofici (o diretor de seu filme anterior), o veterano diretor dos "filmes de tango", José Agustín Ferreyra ficou fascinado pela inclusão de canções como parte da narrativa do filme, e concordou em dirigi-lo. Lusita (Lamarque) é uma jovem que escapa de uma vida familiar infeliz através do casamento; ela adoece e abandona a cidade e recupera-se e, após seu retorno, encontra seu marido com outra mulher. Quando Lusita descobre a infidelidade do marido, a situação trágica é catalizadora para a mudança espontânea do diálogo para cantar o tango correspondente. O filme lançou sua carreira internacionalmente, incluindo no México, nos Estados Unidos e Cuba. Ferreyra também dirigiu os dois filmes seguintes pela S.I.D.E., Besos Brujos (Beijos Comprados, 1937) e La Ley que Olvidaran (Amor Maternal, 1938), o primeiro dos quais foi tão bem sucedido, que a RCA Victor a reintegrou a sua equipe - ela esteve no estúdio de 1926 a 1933 - gravando canções de Beijos Comprados e Ajuda-me a Viver.
Com Madreselva (Madressilva, 1938), um melodrama/musical dirigido por Luis César Amadori e filmado por John Alton, Libertad Lamarque se tornou a maior estrela do cinema argentino. O filme inicia brilhantemente com um tiroteio entre gangsteres em uma rua, que é revelado ser uma cena em um filme protagonizado pela estrela, interpretado por Hugo del Carril. Lamarque interpreta Blanca que, como o público, acredita que o personagem de del Carril é, na verdade, um bandoleiro, e ela tenta recuperá-lo. Quando ela descobre que ele possui uma amante, canta a canção-tema, "Madreselva", um tango, e é descoberta por um empresário. Ela viajava enquanto estrela da ópera, Gloria Selva, e quando retorna encontra sua irmã mais jovem (Melisa Gini), noiva do homem que ama. Mas promete a seu pai, antes de morrer, tornar sua irmã feliz.
Um dos principais diretores argentinos, Luis Saslaviski, co-dirigiu o filme seguinte de Lamarque, Puerta Cerrada (Porta Fechada, 1939), com Alton, e ela continuou a estrelar um ou dois filmes por ano até 1945. Os eventos que ocorreram durante as filmagens de La Cabalgata del Circo (A Cavalgada do Circo) são lendários. Eva Perón (creditada como Eva Duarte) possui um pequeno papel no filme, que é co-estrelado por Lamarque e del Carril, e supostamente com falta de disciplina, enquanto fazia o que queria com todos no set. Eva indignou tanto Libertad, que a estrela estapeou-a. Lamarque sempre negou o incidente, mas ela somente realizaria mais um filme em Buenos Aires, antes de iniciar uma turnê. Foi-lhe oferecido o papel principal no filme mexicano Gran Casino (1947), de Luis Buñuel, e ela aceitou. Ela dispensou seu salário pelos direitos de distribuição na Argentina, Uruguai e Paraguai. Mas em seu retorno a Buenos Aires, ela aparentemente foi incapaz de persuadir qualquer proprietário de cinemas de exibir Gran Casino. Alegando que os amigos e a mídia a estavam ignorando, ela e seu marido levaram seu caso diretamente ao Palácio Presidencial, aonde foram recebidos graciosamente, e Eva condenou qualquer envolvimento dela em uma "lista negra".
Incerta de que poderia continuar sua carreira no cinema e no rádio, Lamarque se estabeleceu no México, aparecendo em 30 filmes lá, em treze anos, incluindo um dirigido por Emilio Fernandez, dois por Roberto Galvadón,e oito por Tito Davison, com quem havia trabalhado na Argentina. Ocasionalmente visitaria sua família na Argentina, mas nunca trabalharia lá enquanto os Perón estavam no poder. Finalmente, em 1960, trabalharia em uma co-produção mexicana-argentina, Creo en Ti, e em 1972 apareceu no filme argentino La Sonrisa de Mamá, dirigido por Enrique Carreras. Ao início da carreira se tornou conhecida como a "noiva das Américas", e nos anos 1970 e 1980 apareceu em telenovelas (na Venezuela, México, Argentina e Espanha), frequentemente interpretando papéis de "avó". Pela época que morreu, na Cidade do México, havia aparecido em mais de 65 filmes e gravado mais de 800 canções.
Texto: Rist, Petr H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 357-58.

Comentários
Postar um comentário