Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#149: Federico Valle
FEDERICO VALLE. (Itália/Argentina, 1880-1960). Um câmera de cinejornais, diretor e produtor, Federico Valle foi um importante pioneiro do cinema argentino.Nascido em Asti, Piemonte, Itália, Valle trabalhou com Geoges Méliès, o grande realizador pioneiro francês, e a partir dos 18 anos como cameraman de cinejornais em três continentes (Europa, Ásia e América). Filmou as primeiras vistas aéreas, de uma aeronave de Wilbur Wright, fora de Roma. Imigrou à Argentina em 1911 e abriu um laboratório para traduzir as captações de filmes em língua estrangeira e produzir entretítulos espanhóis. Sua companhia, Cinematográfica Valle, também exibiu filmes e produziu curtas industriais, que inusualmente, para tais comerciais, foram criativos, bem realizados, de valor educacional, e alegadamente bastante populares com as plateias locais. Valle treinou a primeira geração de operadores de câmera e trabalhadores de laboratórios na Argentina e, em 1917, produziu o primeiro filme de longa metragem de animação no mundo, El Apóstol, com o animador Quirino Cristiani, Diógenes Taborda, e André Ducaud. Ele co-roteirizou o filme com um popular dramaturgo, Alfredo de Laferre. Em 1918 produziu um longa de bonecos, Una Noche de Gala en el Colón (Uma Noite de Gala no Teatro Colón).
Entre 1921 e 1931 Valle produziu mais de mil filmes, incluindo cinejornais, documentários, filmes industriais, e diversas obras de ficção, o primeiro dos quais foi Los Hijos de Naides (1921), dirigido por Edmo Cominetti, e estrelado por Nelo Cosimi, que o escreveu. Durante este período a Cinematográfica Valle foi o esteio da indústria cinematográfica argentina, nos anos que Hollywood veio dominar. Talvez tenha a mais importante série de filmes foi o cinejornal Film Revista Valle, que aparecia a cada quinta à tarde por 657 edições. Os travelogues documentais de Valle foiram também bem recebidos, e um curta, Buenos Aires, 1924, sobreviveu. Ele antecipa as "sinfonias urbanas" realizadas na Europa posteriormente na década, apresentando diferentes atividades como esportes, em um conjunto de planos. Curiosamente, muitas do início são visões aéreas de Buenos Aires. Também sobreviveu um segmento de La Mujer de Medianoche (1925), dirigido por Carlo Campogaliani e co-produzido por Paolo Benedetti no Brasil. Interessantemente, as notações musicais aparecem, movendo-se à esquerda na base da imagem, indicando aos músicos o que deveriam interpretar para o famoso tango "Buenos Aires", gravado por Carlos Gardel dois anos após. Inicialmente observamos uns poucos planos longos da cidade, seguidos por um casal dançando tango entre companheiros de viagem, possivelmente porteños, que aparecem a bordo de um cruzeiro.
Reconhecidamente, Valle também produziu o primeiro filme argentino com uma trilha sonora, Adiós Argentina (1930). Os dez curtas sonoros musicais estrelados por Gardel, em 1930; e um longa todo sonoro e falado (utilizando discos Vitaphone), dirigido por José A. Ferreyra, Manequitas Porteñas (1931). Um incêndio em seu enorme arquivo de cinejornais, em 1926, destruiu a maior parte da obra de Valle, e em 1930 o novo governo militar cancelou um contrato para utilizar o cinema nas escolas argentinas, projeto no qual havia investido fortemente. Agora empobrecido, Valle foi forçado a vender seus filmes remanescentes para um fabricante de pentes, por seu interesse pelo celuloide. Virtualmente esquecido, foi-lhe finalmente garantida uma pensão pelo Congresso Argentino por sua contribuição à cultura nacional, em 1959, somente um ano antes de sua morte.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 583-84.

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