Filme do Dia: Lolita (1962), Stanley Kubrick
Lolita (EUA/Reino Unido, 1962). Direção: Stanley Kubrick. Rot. Adaptado: Vladimir Nabokov & Stanley Kubrick, baseado no
romance homônimo de Nabokov. Fotografia: Oswald Morris. Música: Bob Harris
& Nelson Riddle. Montagem: Anthony Harvey. Dir. de arte: William C.
Andrews. Figurinos: Gene Coffin. Com: James Mason, Shelley Winters,
Sue Lyon, Peter Sellers, Gary Cockrell, Jerry Stovin, Diana Deker, Lois
Maxwell, Bill Greene.
Professor universitário britânico
Humbert Humbert (Mason), recém-chegado nos Estados Unidos, decide morar na casa
da carente e provinciana viúva Charlotte (Winters), a partir do momento que vê
pela primeira vez sua filha, conhecida como Lolita (Lyon). A obsessão de
Humbert pela garota chega ao ponto de casar com Charlotte apenas para ficar
próximo dela. Porém, seu plano é atrapalhado pela decisão de Charlotte de
mandar a filha para uma colônia de férias e depois para um internato. Charlotte
logo descobre os diários de Humbert e suas referências nada elogiosas a ela
própria, assim como seu fascínio por Lolita. Enquanto pensa em assassinar
Charlotte, ela acaba sendo morta por atropelamento. Humbert parte em viagem
pelo país com a garota, que desperta o fascínio do lúbrico espertalhão Clare
Quilty (Sellers), que consegue driblar a marcação cerrada que Humbert empreende
em relação ao contato da enteada com o mundo exterior, e fugir com Lolita. Após
reencontrar Lolita depois de dois anos, casada com o inexpressivo Dick
(Cockrell) e com planos de se mudar para o Alasca, Humbert sabe a verdade a
respeito de Quilty e o assassina.
Quinto filme de Kubrick com um
interessante olhar irônico dirigido à sociedade americana a partir do
protagonista, de cujo senso o cineasta parece compartilhar. Narrado pelo
protagonista, ao mesmo tempo em que faz uma menção ao universo do filme de
gênero americano das décadas anteriores, como o cinema noir, antecipa em décadas a ironia sarcástica com a pretensa
ingenuidade americana a ser feita por Veludo
Azul, Beleza Americana, entre
outros. Na verdade, Kubrick parece para o bem e para o mal pouco interessado em
construir uma narrativa em que ocorra uma empatia psicológica com os
personagens retratados. Há sempre um certo grau de distanciamento emocional
que, se por um lado se afasta da tentação das identificações banais do drama
psicológico hollywoodiano, por outro tampouco demonstra qualquer interesse real
do cineasta pelos personagens que apresenta, antes interessado em demonstrar
suas virtudes como realizador. Repleto de private
jokes, como a que faz referência a Spartacus,
filme anterior do cineasta, é igualmente prenhe de diálogos engenhosos e boas
interpretações – mesmo que Winters possa parecer um tanto over em sua caracterização da dona de casa medíocre e mesquinha e o
mesmo com relação ao cinismo de Mason. Trabalhando de forma bastante sutil a
relação entre enteada e padrasto (talvez até involuntariamente, dada à censura
da época), que ficaria ainda mais interessante se não acabasse por explicitar
que realmente houve um envolvimento sexual entre ambos, o filme ao mesmo tempo
demonstra um patamar de liberalidade em relação aos costumes na produção
americana impensável até anos recentes. A película introduziu Lyon, sendo
também seu papel mais marcante. Anya/Harris-Kubrick Prod./Seven Arts/Transwood. 152 minutos.

Comentários
Postar um comentário