Filme do Dia: Onde Estás, Felicidade? (1939), Mesquitinha
Onde Estás, Felicidade? (Brasil, 1939). Direção: Mesquitinha. Rot. Adaptado: Mesquitinha, a partir da peça de Luis Iglesias. Fotografia: A.P. Castro. Música: Radamés Gnatalli & Luciano Perrone. Montagem: Mesquitinha. Com: Alma Flora, Rodolfo Mayer, Nilza Magrassi, Luiza Nazareth, Vanda Marchetti, Dircinha Batista, Ana de Alencar, Paulo Gracindo, Carlos Barbosa, Grande Otelo, Abel Pera, Mesquitinha.
Paulo (Mayer) vive pacatamente nos subúrbios do Rio, na casa de sua tia solteirona, Clodô (Nazareth) até sua mulher, Noêmia (Flora), receber a visita de uma socialite amiga sua, Lúcia (Marchetti), que consegue convencer Paulo a se mudar, além de quase seduzi-lo. Já numa mansão em Copacabana, Clodô confidencia a Fernandinha (Magrassi), amiga de infância e desde sempre apaixonada por Paulo, que não se habitua a sua vida de grã-fina. É dia de festa e boa parte da sociedade carioca se encontra presente, mas Noêmia se irrita com a ausência de Paulo, que se encontra trabalhando. Quando esse chega, já era hora de todos irem para outra casa, incluindo Noêmia, ficando Paulo desconsolado.
O estilo de interpretação da época, com os atores demasiado marcados, como se estivessem diante da plateia de um teatro, são características presentes na cinematografia nacional em geral do período, aqui sendo na verdade ainda mais enfatizadas por não se burlar sua origem teatral. Trata-se de uma comédia de costumes, ou ao menos assim se pretende, e nela o imperativo maior parece ser o de ficar do lado dos suburbanos como os de alma simples, mas digna, contra os citadinos, cosmopolitas, mas amorais e preocupados apenas com a futilidade mundana de uma falsa doce vida. O fato de Noêmia não compactuar com os princípios da vida simples é explicado por ela “já ter vivido em sociedade”, como argumenta Marchetti. Ao contrário dela, a figura que personifica os sonhos de amor infantil nunca concretizados de forma adulta é a de Fernandinha, que se adivinha como par ideal para Paulo, e como bem parece concordar Clodô. Sua busca de humor a partir de tiques de seus personagens que são antes representações de tipos sociais mais genéricos não se torna mais estranha a um espectador de mais de oito décadas de sua realização, por conta de ter sido tornado lugar-comum nos programas cômicos de TV, embora o papel designado a Grande Otelo nesse latifúndio da moral pequeno burguesa, seja demasiado tosco em seu evidente deboche racial-social. E, sintomaticamente, o empregado vivido por Otelo não é levado para Copacabana. É claro que, não muito diversamente dos melodramas da década anterior (como Aitaré da Praia) as decisões de mudança para a cidade e de um padrão social mediano (ou mesmo pobre no caso do filme mudo) para ambientes da alta burguesia parece ser apenas uma questão de escolha, não envolvendo nenhum tipo de custo social, sobretudo monetário. E se em Argila de Mauro havia o Conde Barrocas, não falta aqui um tipo afrancesado de colunista social ainda mais afeminado e cheio de cortesias excessivas, ou seja, mais uma nota em falso do que representa a “sociedade”. E não deixa de ser curioso ser vivido por Gracindo. Aliás, a situação de convescote social também será observada no filme de Mauro, assim como o momento da canção, aqui ainda mais deslocada, pois seu tema lírico e melancólico em nada combina com o ambiente da festa (e de comédia proposto pelo filme), por mais que a personagem aqui seja de uma cantora profissional. Sua cenografia mais parece uma imitação bastante empobrecida de seus congêneres italianos contemporâneos, marcados por esse mesmo escapismo social em traços art déco. Ao contrário de Barrocas, que se apresenta como um falso erudito, o atrapalhamento desse parece mais afinado com a figura a qual se reservou o próprio diretor, Félix. Não faltam referências cinematográficas, seja à elegância de Joan Crawford, seja à figura predatora da vamp e, consequentemente, a questão da moralidade que o cinema (norte-americano, certamente) ajudaria desvirtuar. Fernandinha, por sua vez, é expert em interromper situações de enlevo amoroso. Primeiro da assanhada Lúcia para com Paulo, depois de Seu Pereira com Dona Clodô. Seu momento mais patético, sem sombra de dúvida, é o da resolução do suspenso triângulo amoroso, com Fernandinha dando conselhos a rival de forma tão “convincente” quanto a Luciana de Carmen Santos o fará no filme de Mauro e a redenção da última, mais inverossímil que a de qualquer produção hollywoodiana contemporânea, a partir do choro de Fernandinha. Que mal disfarça ao final seu incômodo com a cena de amor entre Paulo e Noélia; mas talvez a separação fosse um tema demasiado ousado para o período, daí o arranjo instantâneo de uma felicidade que (re)une dois casais na noite de ano, desfaz um terceiro (para o bem dos dois provavelmente) e deixa Fernandinha em escanteio, como figura do ressentimento feminino, bastante marcado na época, mal disfarçando seu incômodo e, uma vez mais, tornando a fazer o seu papel de separar situações de enlevo. Cinédia para DFB. 85 minutos.

Comentários
Postar um comentário