Filme do Dia: O Sequestro do Voo 375 (2023), Marcus Baldini

 


O Sequestro do Voo 375 (Brasil, 2023). Direção Marcus Baldini. Rot. Original Lusa Silvestre & Mikael de Albuquerque. Música Plínio Profeta. Montagem Lucas Gonzaga & Gustavo Vasconcelos. Dir. de arte Rafael Ronconi.  Cenografia Juliana Di Grazia. Figurinos  Leticia Barbieri. Maquiagem Luciana Santini. Com Danilo Grangheia, Jorge Paz, Roberta Gualda, César Mello, Adriano Garib, Juliana Alves, Cláudio Jaborandy, Gabriel Godoy.

Brasil, 1988. Revoltado com as condições precárias de sua família, o maranhense Nonato (Paz) decide sequestrar um voo da Vasp que ia para o Rio de Janeiro, fazendo com que o piloto, Murilo (Grangheia) o desvie para Brasília, com o objetivo de jogá-lo sobre o Palácio do Planalto, para provocar a morte do presidente Sarney.

O que possui de relativamente eficiente enquanto thriller, numa pegada bem “americana”, não o possui em termos de representação. E entenda-se aqui representação enquanto interpretação, mas também de representações culturais, caso da elaboração patética do sequestrador, um nordestino e mestiço. E tristes diálogos. O que não chega a comprometer quem busca o envolvimento apenas. Porém, quem avançar para além do prazer vicário no espetáculo se decepcionará com uma cova rasa de clichês, como é o caso do momento no qual os dois feridos, lado a lado, piloto e sequestrador, sendo encaminhados para o socorro, entabulam algo como um olhar cúmplice a enlaçar um mal maior que os levaria a este momento de cumplicidade. Ambos, em um grau ou outro, vítimas do “sistema”. Um, retaliação no trabalho quando ousou uma movimentação política de sua classe. Outro, agoniado (para utilizar um termo recorrentemente utilizado no Nordeste, cujas expressões são tão maltratadas nos balbucios raivosos de Nonato) com a situação de miserabilidade relegada à sua família. Quando ele lê o que seria uma carta a ser enviada a sua filha, caso morresse, observamos praticamente um tributo aos analfabetos “abrindo seus corações” a Dora de Fernanda Montenegro em Central do Brasil. Porém, as caricaturas não findam por aí. Há um ministro militar tão beócio que chegamos a imaginar que se trataria de uma leitura advinda de um “olhar americanizado”, a observar com condescendência uma republiqueta de bananas – algo um pouco mais difícil de se efetivar após a tentativa de golpe por lá. Há os civis, a Polícia Federal e uma controladora de voo, que serviriam como o contrapeso habitual, igualmente, nas telas americanas. Ainda bem que sem a necessidade de se criar uma psicologia e história de vida para tais personagens, como uma supercola de empatia. Quando o pensamos em relação a um filme divisor de águas nos temas envolvendo dramas aeroviários, Aeroporto, temos vários pontos adiante. Desde de ser um drama a atingir muito mais que os envolvidos, e criar uma situação política – embora a visão política do filme seja a difusa e, em última instância problemática, e portanto uma vez mais compatível com o american way of cinema – até não se ter a necessidade de se criar pequenas histórias de vida dos envolvidos no episódio, com exceção do básico. E ainda provocar um renascimento do drama e do suspense após acharmos se encontrar findo, um drama nos ares, e outro em terra.  Os efeitos utilizados são razoáveis, e as cenas internas da cabine e as consequências dos sacolejos por quais passam muito bem efetivadas. Embora não deixe de apresentar um resumo da trajetória dos principais envolvidos após o episódio, como se tornou padrão, sobretudo em filmes baseados em fatos acontecidos no mundo histórico, a informação mais interessante compartilhada, é sua ação servindo como uma das fontes para a  efetuada por Bin Laden no 11/09, que inclusive também mirava a Casa Branca, apesar de fontes da Boeing afirmarem que o avião daquele porte não poderia efetuar piruetas como as da esquadrilha da fumaça – motivação de uma das deixas psicológicas básicas previamente lançadas pela narrativa, pois fora a esquadrilha a motivação maior do piloto Murilo. Por outro lado, fica-se com o incômodo efeito das imagens, já nos créditos finais, do fato noticiado em telejornal por Cid Moreira, de uma notícia no calor do momento, paradoxalmente mais fria do que a ficção, mas sem a tentativa falseada de abrangência que a narrativa dramática ficcional pretende. |Star Original Prod./Escarlate Conteúdo Audiovisual para Star Distribution. 107 minutos.

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