Filme do Dia: Casa de Dinamite (2025), Kathryn Bigelow

 


Casa de Dinamite  (A House of Dynamite, EUA, 2025). Direção Kathryn Bigelow. Rot. Original Noah Oppenheim. Fotografia Barry Ackroyd. Música Volker Beterman. Montagem Kirk Baxter. Dir. de arte Jeremy Hindle & Chris Shriver. Figurinos Sarah Edwards. Maquiagem e Cabelos Christine Hooghuis, Jackie Risotto & Kerrie Smith. Com Idris Elba, Rebecca Ferguson, Gabriel Basso, Jared Harris, Tracy Letts, Anthony Ramos, Moses Ingram, Jonah Hauer-King, Quincy Dunn-Baker, Greta Lee, Jason Clarke, Kaitlyn Dever.

Um míssil balístico intercontinental é identificado em trajetória de colisão com os Estados Unidos. A equipe da capitã Olivia Walker (Ferguson) é alertada da situação, e que em 18 minutos o míssil atingirá o meio-oeste do país, pouco tempo depois identificado como o alvo Chicago. Em uma ligação simultânea com várias autoridades, incluindo o presidente do país, o conselheiro de segurança nacional Jake Bearington (Basso) aconselha uma não retaliação imediata, inclusive porque há chances de não efetividade do projétil. E uma reação provavelmente envolveria ataques a outros centros urbanos do país de imediato. O General Anthony Brody (Letts) possui uma visão antípoda, sendo a retaliação uma prevenção contra ataques futuros. Baerington, a discutir com Brody, incita a presença imediata da especialista Ana Park (Lee), de folga com o filho em momento de lazer, que afirma a possibilidade da Coréia do Norte ter lançado a ogiva. Baerington é levado a uma casamata, onde testemunha a ligação do almirante Mark Miller (Clarke) ao secretário de defesa russo, de não ter provindo deles o ataque, e promete retaliação caso os EUA os ataquem. O presidente dos EUA (Elba), tenso, é forçado a tomar uma decisão, enquanto o Secretário de Defesa Reid Baker (Harris), sabendo da iminência da explosão, e da presença de sua filha Caroline (Dever) na cidade, pula do alto do Pentágono. O presidente e Reeves, que já haviam sido retirados da participação em um evento esportivo, também são evacuados de Washington, minutos antes do impacto, e indaga do jovem tenente Reeves (Hauer-King), qual opção ele acha mais sensata a decidir.

Eficiente seria um bom adjetivo para descrever esta produção, em termos de sua articulação entre a montagem, de diversos ângulos, de uma mesma situação de tempo extremamente comprimida e com impactos mais modestos que os das habituais dimensões apocalípticas das ficções científicas (como é o caso, dentre muitos, de Eu Sou a Lenda e similares). Tampouco, como naqueles, existe uma figura como Cristo, responsável único pela salvação da humanidade, sendo esta decisão compartilhada – por mais que, em última instância, decidida pelo presidente, figura apresentada com simpatia e laivos emocionais e de compreensão, ausentes do assistente que afirma roboticamente as opções a se lidar, como se lesse um menu de restaurante. Por fim, como cereja do bolo, o caráter irresoluto, como se de uma produção modernista de Antonioni se tratasse, pois sempre que a aproximação do segundo s chega, da queda do artefato atômico sobre Chicago, dá-se, uma imagem em preto, e uma nova perspectiva da história é apresentada. Para não falar, do esperto recuo e aproximação paranoica de quem seria este inimigo da ação secreta em curso (Coréia do Norte? China? Rússia?) a se articular com a proposta-título, que dá nome a um dos episódios a trazerem uma nova perspectiva sobre o mesmo evento em mesmo tempo real: construímos nossa casa sob um amontoado de dinamites. A chance de que um dia haja uma grande explosão derivada desta premissa, internamente ou por temor alheio de nossa potência, é enorme. Em contracampo a estas opções menos ortodoxas, há um forte arsenal de clichês a contrabalançar ou tentar arrefecer qualquer alienação demasiado radical do espectador quanto ao assistido. Câmera nervosa e expressões de tensão, e seu rebatimento entre colegas, seja onde estiveram. Conversas envolvendo termos técnicos e jargões específicos, outra prática compartilhada com a ficção científica.  Um irritante tema musical incessante e em modo looping a se enredar tanto a uma narrativa que segue igualmente este padrão, mas também pretenso estimulador de que tais pressões vividas pelas personagens contaminem igualmente quem se encontra do outro lado da “quarta parede”. E uma mais irritante “dobra sentimental”, maquinicamente colada ao universo familiar de cada um dos mais fortemente envolvidos em cada episódio, sendo o secretário de defesa seu exemplo mais radical. Ou ainda, como o espelho de duas faces, de observar a figura do político vacilante e temeroso de ter que bater o martelo,  e também mais radicalmente “covarde”, no suicídio do secretário de defesa; com uma faceta liberal progressista, no qual duas das mulheres observadas, a demonstrarem uma resiliência emocional maior que a maior parte dos homens observados, porém um “endurecer sem perder a ternura”, como quando a capitã Olivia Walker tira do bolso sem lembrar o pequeno dinossauro presenteado pelo filho em uma noite de insônia; é um truque mais baixo e vulgar que o do jovem assassinado quando ia mostrar o que se encontrava no seu bolso em Crash. É comprar ou se aborrecer com o xadrez que está posto e, na perspectiva deste escriba, infelizmente a segunda experiência foi a vivenciada, contando os minutos e segundos não da hecatombe nuclear possível sobre Chicago, mas sim do final desta produção, que chega de maneira relativamente disruptiva, como uma dádiva. Nesse sentido, sua observância de um “evento” tenso em tempo real soa bem menos interessante que a experiência não visual, mas auditiva, de um caso policial em Culpa.|First Light Prod./Netflix/Prologue Ent. para Netflix.  112 minutos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso