Filme do Dia: O Cão Preto (2024), Hu Guan

 


O Cão Preto (Gouzhen, China, 2024). Direção Hu Guan. Rot. Original Hu Guan, Ge Rui,  & Wu Bing, a partir do argumento de Hu Guan. Fotografia Gao Weizhe. Música Vivian Breton. Dir. de arte Li Chang. Figurinos Zhou Li. Maquiagem Hong Yang. Com Eddie Peng, Liya Tong, Jia Zhang-ke, Zhou You, Hu Xiaoguang, Niu Ben, Yin Yuanzhang,  Li Zhang.

Lang (Peng), celebridade local de uma pequena cidade nas proximidades do Deserto de Góbi, retorna após sua prisão por homicídio, e sendo perseguido por um mafioso local (Xiaoguang) por estar implicado na morte do sobrinho deste e não se encontra disposto a encontrar de imediato o pai, alcóolatra e trabalhando em um zoo abandonado. Engajado em uma atividade para aprisionar cachorros não registrados, selvagens ou domésticos, tendo em vista a proximidade das Olímpiadas de Pequim, sob o comando do Tio Yao (Zhang-ke), Lang menos ajuda que atrapalha os dois outros membros do serviço. O paciente  Yao o transfere para o cargo de motorista. Há muito tempo, Lang possui curiosidade sobre um cachorro preto que vira em um conjunto habitacional abandonado. Com muito esforço, certo dia consegue captura-lo e o leva para casa.

As primeiras imagens inóspitas do deserto se espraiam para a cidade, decadente, feia e árida. Lang volta para a poeira – literalmente do passado – e nela escolhe um único objeto a fazê-lo sair de lá. Seus planos a cobrirem uma imensa área, cortadas por um comboio ferroviário interminável ao fundo, com uma fotografia igualmente cinza, parecem ser tributárias tanto da tradição ocidental de filmes de gênero, como o western, como do cinema de Jia Zhang-ke. Como Eastwood em um de seus filmes mais famosos, Lang não é dado a falar.  Como se Guan juntasse à poética melancólica e desoladora do mestre compatriota, intuitos mais próximos de um filme de gênero. E não será surpresa se descobrir justo Zhang-ke no elenco. Os tempos são outros, no entanto, e Guan descreve uma China bem mais globalizada que a dos tempos de Plataforma, sem dúvida, tendo as Olimpíadas de Pequim de 2008 como referência. Porém de uma perspectiva eminentemente provinciana, tal como Zhang-ke. A contrapelo da pujança econômica e arranha-céus impressionantes. Em meio a poeira, o casario pobre e gasto, e os cães soltos em matilhas ou isolados. E, ao contrário de Zhang-ke, sem a leveza agridoce de seus jovens. É uma China repleta de conjuntos habitacionais de aparência decadente, que não viram tinta ou manutenção há anos, e de indicadores nada elegantes...o modo como Lang tenta se aproximar do cão preto ao qual se refere o título é urinando na parede de um conjunto abandonado. Ao que o cão sobrepõe sua própria urina. Uma China praticamente inédita aos olhos do Ocidente. Onde alguma beleza pode emergir de composições visuais de um inesperado pitoresco, como o guindaste ao qual Lang recorrentemente retorna. Sua pequenez ressaltada em meio a grandiosidade ocre de tudo. E posteriormente derrubado pela própria ganância econômica e projetos mastodônticos. Os sinais de insatisfação são variados. E de se contrapor à China oficial, quando a morte do pai ocorre justo no momento da contagem regressiva para o início das Olimpíadas. Há uma queda no rigor, a partir do momento que tal como o cão, o filme rende-se a um relacionamento mais convencional com o seu dono, que por sua vez sai de seu estado semi-afásico, passa a falar, visita finalmente o pai e redescobre os sentimentos, afirmando com a cabeça gostar da garota que parece interessada nele. É como se o filme partisse de um pessimismo mais radical que o do mestre, para situações mais típicas e esperadas que as dele em sua rota final. |The Seventh Art Pictures/Huayi Brothers Pictures/Momo Pictures/Bona Film Group para Playtime. 116 minutos.

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