Filme do Dia: Luzes da Cidade (1931), Charles Chaplin
Luzes da Cidade
(City Lights, EUA, 1931). Direção e Rot. Original Charles Chaplin.
Fotografia Gordon Pollock & Roland Totheroh. Montagem Charles Chaplin &
Willard Nico. Dir. de arte Henry Clive. Cenografia Charles D. Hall. Com Charles
Chaplin, Virginia Cherrill, Harry Myers, Florence Lee, Al Ernest Garcia, Hank
Mann.
Um
vagabundo, que acorda em meio a inauguração solene de uma estátua, dormindo na
própria, depara-se com uma florista cega (Cherrill) pela manhã e um excêntrico
milionário bêbado (Myers) à noite, de quem salva do suicídio, e em seus
momentos maníacos, torna-se seu grande amigo, apenas para ser defenestrado
quando a sobriedade emerge. Aproveitando-se da situação, o vagabundo leva a
florista até a casa dela, no carro do milionário, e descobre que ela e a avó
(Lee), encontram-se em vias de serem despejadas. A florista acredita ser ele um
homem rico, assim como a avó, e o vagabundo pretende manter a fantasia, e até
busca emprego para tentar remediar a situação, sendo demitido pouco tempo
depois e buscando ganhar pouco mais do que o necessário para quitar as dívidas
da garota, em uma luta de boxe. Porém, o rapaz com o qual havia combinado
dividir o prêmio e não se ferirem, foge no último momento e um outro, nada
disposto a fazer acordos e mais forte, fica em seu lugar. O vagabundo, apesar
de quase vencer ou empatar, perde a disputa. Ele reencontra o milionário que
lhe arranja nada menos que mil dólares. Porém assaltantes se encontram na
mansão e quando a polícia chega, acham que o ladrão fora o vagabundo. O
milionário, após a coronhada que levou, não o reconhece. O vagabundo consegue
se safar com o dinheiro, entrega-o a florista e pouco depois é preso. Quando se
encontra novamente flanando pelas ruas reencontrará casualmente com a florista,
não mais cega e com uma lojinha, próxima da esquina onde ficava.
Condensa
o que há de melhor e pior em Chaplin. O uso prodigioso da pantomima, por vezes
aliado também de uma pouco usual inventividade cinematográfica, como é o caso
da cena no restaurante em que todos imediatamente começam a dançar e a própria
câmera parece se contagiar pelo agito. Assim como um toque de comentário
sócio-psicológico sem descambar para o proselitismo, na figura do milionário
cuja amizade e generosidade se dá na medida de seu etilismo. Por outro lado,
uma sentimentalidade ainda mais acentuada que em suas produções mudas raiz –
esta é sonorizada, ainda que não falada – comprimidas numa figura idealizada de
florista, um tanto assexuada e vitoriana, quando se pensa mesmo nas
representações femininas contemporâneas, e algumas ainda anteriores, das telas (Clara
Bow, Jean Harlow (inclusive numa ponta deste), Pola Negri, Mae West, Joan Crawford) e cuja relação mais
parece ter sido projetada por um garoto nos bancos de escola, como uma flor
desenhada para o dia das mães. E, infelizmente, muito pouco mesmo de cômico
consegue romper este dique da parte sério-dramática envolvendo a amada e sua
velha mãe, como é o caso do momento em a jovem cega entorna uma vasilha de água
no corpo do vagabundo, com a mesma cara
onipresentemente magnânima, um toque maroto de humanidade, mesmo que
involuntário e infelizmente incomum; aliás, que
a mesma seja creditada como “a garota cega”, dá uma medida de sua
fantasia ser tão decantada da realidade quanto, por outros filtros, nos quais a
sexualidade foi instilada na mesma falta de proporção, apenas inversa, sobre a
fórmula, há Marilyn Monroe e sua “garota” em O Pecado Mora ao Lado. Aqui
o mesmo vale para todos, com exceção do próprio vagabundo, que apesar de
tampouco ser nomeado é o único personagem não unidimensional – a função bipolar
do milionário já está contida em seu tipo e crédito. Humor não parece combinar
com posturas agressivas, e em todos os grandes comediantes do cinema parece se
encontrar latente uma reserva de feminilidade. Que assoma no momento que, tal
como Pernalonga por vezes faz uso quando se sente ameaçado ou deseja seduzir, o
vagabundo se depara com o brutamontes com o qual terá que boxear, sendo a
reação do outro se despir longe de seus olhos; e é curioso como a sexualidade é
canalizada para uma cena de pretensões humorísticas e não sério-dramáticas,
nestas funcionando na base da castradora sublimação. A verve de Chaplin com a pantomima, um
pouco menos acrobática que em seus filmes da década anterior, uma acusação
igualmente da passagem do tempo, e a naturalidade e graça com que parece
deslizar por situações diversas, por vezes em um mesmo quadro, possuem a
limitação de uma inadequação para com a mudança dos tempos. Sendo, em termos
técnicos-estilísticos a recusa ao sonoro um exemplo gritante – e a sequência inicial
é uma caricata forma de se deparar com esta limitação, fazendo com que a cena
dos discursos seja atrofiada por grotescos efeitos sonoros; não será um
sucedâneo disso que, quando o discurso tome vez sonorizado de fato, redunde na
tragédia proselitista de O Grande Ditador? Mas, para além da
incapacidade de atualização neste quesito, em termos morais e de visão de mundo
tampouco houve progressos significativos, a exceção do ponto fora da curva que
foi Monsieur Verdoux. Seria demasiada ranhetice não abrir um espaço em
meio a este sentimentalismo de estufa para apreciar o comovente toque entre
peles que faz com que a florista, agora não mais cega, seja capaz de
identificá-lo. Mas se esgota em si própria e na falta de substância do
conjunto. E o efeito estufa é melhor ainda conseguido ao se lidar com técnicos
quase completamente dissociados do chão de fábrica hollywoodiano, assim como a
maior parte do elenco. E certamente é por conta das condições geradas por ele,
e seus tipos e situações genéricas, que o filme ainda resista tão popular
quanto boa parte dos mais destacados de Capra. Ou das abstrações bem
intencionadas sobre a humanidade. National Film Registry em 1991. |Charles Chaplin Prod. para United Artists.
87 minutos.

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