Filme do Dia: Eternamente Sua (2002), Apichatpong Weerasethakul
Eternamente Sua (Sud Sanaeha,
Tailândia/França, 2002). Direção e Rot. Original Apichatpong Weerasethakul.
Fotografia Sayombhu Mukdeeprom. Montagem Lee Chatametikool. Dir. de arte
Akekarat Homlaor. Com Kanokporn Tongaram,
Min Oo, Jenjira Pongpas, Sa-gnad Chaiyapan, Kanitpat Premkij, Jaruwan
Techasatiern.
Min (Oo) é
um jovem que se faz passar por mudo ao ser avaliado em um exame médico. Ele é
auxiliado em um grave problema de pele que possui, por Roong (Tongaram) e uma
pessoa próxima dessa e mais velha, Orn (Pongpass) que vive uma relação
relativamente fortuita com Sirote (Chaiyapan).
Roong forja um motivo para se afastar do trabalho e passar uma tarde ao
lado de Min. Posteriormente se junta ao casal Orn, após ter feito sexo com
Sirote, não muito distante de onde o outro casal se encontra.
Um dos
expoentes do chamado Cinema de Fluxo traz uma narrativa típica na qual se
abandona (ou ao menos se pretende abandonar) a liturgia das narrativas clássica
e modernista (desta última ainda se percebem vários ecos) por um retorno a uma
crença na imagem e na possibilidade de apreensão de aspectos da realidade
física, buscando um retorno desta investigação contra o peso dos gêneros e do
que a imagem cinematográfica trazia já em termos de tradição. Poderia ser
considerada uma releitura/desconstrução/paródia (voluntária ou involuntária) do
cinema modernista, como o maneirista fora do clássico? De uma forma mais
abrupta que seu cinema pode ocasionalmente se transformar de uma adesão a estes
pequenos-grandes gestos do real e do afeto em uma narrativa a enveredar por uma
fantasia de tons espirituais (Mal dos Trópicos) o enlevo romântico do
jovem casal parece ceder a uma cena de sexo. Apenas para se descobrir
posteriormente não se tratar do mesmo casal que acompanhávamos. E entre os
fortes elementos deste cinema modernista encontra-se: o próprio seguir o fluxo
dos personagens (O Eclipse como exemplo inescapável); os créditos
surgirem já de muito o filme iniciado, ultrapassando também em muito o que já
se tornara uma convenção adotada, a determinado momento, pelo cinema comercial,
de uma sequencia pré-créditos; o olhar ainda mais generoso, em termos de
temporalidade, para os pequenos gestos, como os de Orn sobre seu próprio corpo
ou dos pés do casal mais jovem se entrelaçando dentro da água; e, mais próximo
talvez do cinema mudo, a inscrição de desenhos e palavras sobre as imagens.
Como ocasionalmente no cinema modernista, temos pouco acesso a definição dos
personagens e as situações nas quais se encontram envolvidos. Como se
conhecerem por exemplo, já iniciando abruptamente com a cena na clínica na qual
Min é analisado por uma médica. Ou o que de fato ocorre quando Sirote tem sua
motocicleta levada e ouve-se um tiro. Já
se aproximando do final ouvimos uma voz over do birmanês Min, nome
também do ator (outro recurso bastante utilizado pelo cinema moderno)
especificando ser um foragido da justiça de seu país e seus planos de sair o
mais breve possível da Tailândia, ter um filho com a mulher a quem sem dirige,
porém não sabemos se é algo que constrói
mentalmente no momento na qual é mimado pelas duas mulheres no riacho ou de
fato se trata de uma carta real escrita em outro momento. Ao final, ao caráter
em aberto, já não incomum nos modernistas, Weerasethakul propõe uma minorada na
sensação de incompletude da história, ou de um rasgo na vida dos três
personagens, ao apresentar, como muito comum no cinema hollywoodiano, o que
estariam fazendo tempos depois, com pitadas de humor (sobre a atriz que
vivencia Orn, afirma continuar trabalhando como extra em filmes tailandeses).
Embora haja um arremedo de construção atmosférica a sugerir talvez uma
eminência trágica a ocorrer em alguns momentos, não chega a ser tanto quanto
alguns outros filmes contemporâneos e posteriores a este. Desnecessário dizer
dos tempos mortos, pelos quais o realizador ficaria particularmente conhecido,
embora aqui não radicalizados e das “pontas soltas”, como a do companheiro de
trabalho de Sirote tentando uma interação sexual com Min. Há ainda um desejo de
imanência em relação ao tempo “não produtivo”, como a questionar o próprio uso
deste tempo em um cinema ficcional convencional. E quase como uma manifestação
deste desejo, Roong provoca Orn a se deixar relaxar no ambiente paradisíaco.
Quase como se convidasse o espectador a se afetar por outros preceitos, que não
os habituais (haverá algum acidente? Algum momento de violência a se precipitar
como aquela cena de sexo sobre a idílica que a precede?). O que se poderia
indagar é se tal elaboração poderia se dar em relação a um mundo vivido mais
marcadamente laboral ou apenas por vias de escape. Próximo ao final, e de
acordo com uma liberalidade sexual já comum em certo cinema autoral
contemporâneo igualmente, Roong tira o pênis de Min da cueca e o acaricia.
|Anna Sanders Films/Kick the Machine/La-ong Dao para Kick the Machine. 125
minutos.

Comentários
Postar um comentário