Filme do Dia: El Chacal de Nahueltoro (1969), Miguel Líttin

 


El Chacal de Nahueltoro (Chile, 1969). Direção e Rot. Original: Miguel Littin. Fotografia: Héctor Rios. Música: Sergio Ortega. Montagem: Padro Chaskel. Dir. de arte: Luis Cornejo. Com: NelsonVillagra, Shenda Román, Marcelo Romo, Héctor Noguera, Luis Alarcón, Pedro Villagra, Rafael Benavente, Rubén Sotoconil.

José del Carmen (Villagra), de atribulada infância e juventude, vivencia uma vida adulta igualmente errante, sem se fixar a um local ou emprego. Acolhido temporariamente por uma família, que vem a ser expulsa de sua casa pela polícia, mata todas as crianças da família e sua mãe, Rosa (Román) deixando um rastro de seis corpos. Preso, passa por um processo de sociabilização na prisão que o transforma em alguém aparentemente inofensivo, católico e consciente de pertencer a uma nação, além de bastante preocupado com o futuro de sua mãe. Apesar de tudo isso, del Carmen é condenado a pena capital. Mesmo sob os protestos de um jornalista (Romo) que o havia entrevistado recentemente, vem a ser executado em público, diante de um batalhão de fotógrafos e curiosos.

Interessante retrato de um assassino como vítima do Estado, por mais duvidosa que seja sua equiparação entre a evidente psicopatia sofrida pelo  mesmo enquanto equivalência ao fato de não ter sido alfabetizado ou se inserido na “comunidade nacional”, e que seria na prisão – ao qual, curiosamente, não sofre nenhum rechaço, como seria de se esperar em toda a sua trajetória. Littin praticamente nos poupa do que seria a repercussão nacional do evento, acompanhando somente o próprio protagonista e os que se encontram próximos dele em termos espaciais. Dividido em “capítulos” com títulos surgindo sobre a imagem, acompanhamos desde a infância até a vida adulta do acusado, passando por sua juventude, não exatamente de forma didática, mas partindo de recortes esparsos. Na infância talvez surja uma das imagens mais interessantes do filme, quando é levado para uma igreja e tenta se aproximar das outras crianças sendo rechaçado. Não deixa de ser tocante a imagem, feita com câmera na mão, onde o sorriso acaba se sucedendo uma tensão e por fim a seriedade em seu rosto. Littin faz uso de alguns cacoetes então em voga no cinema modernista, como é o caso da repetição de planos ou tomadas, mas os adapta, assim como a voz over do protagonista, para uma realidade social geralmente distinta da dos personagens habitualmente retratados pelo cinema autoral europeu ou mesmo latino-americano (caso de Memórias do Subdesenvolvimento e Terra em Transe). Assim, aqui observamos planos ou tomadas próximas no qual a repetição, além de ser um floreio estético, representa a quantidade de sacas que o protagonista tem que levar nas costas quando jovem ou a presença de uma narração over nada fluente e basicamente objetiva, pouco voltada para sentimentos e para uma subjetividade lírica, em grande parte herdeira da tradição burguesa que pretende rejeitar. Por outro lado, no entanto, ao tentar explicar a fúria do personagem e seus crimes apenas por um viés culturalista, o filme provoca um reducionismo que se torna antípoda de propostas latinas contemporâneas, como a do boliviano Jorge Sanjínes (Sangue de Condor), no qual o universo destituído de educação formal e de maior inserção social, mesmo sofrendo vários reveses, está longe de ser observada apenas pelo “olhar de fora” que é construído aqui, donde se observa apenas algumas situações, mas não se detém nas motivações nelas associadas. Cine Experimental de la Universidad de Chile/Cinematografica Tercer Mondo. 95 minutos.

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