Filme do Dia: O Leão de Sete Cabeças (1970), Gláuber Rocha
O Leão de Sete Cabeças (Der Leone
Have Sept Cabeças, Brasil/Itália/França, 1970). Direção Gláuber Rocha. Rot.
Original Gláuber Rocha & Gianni Amico. Fotografia Guido Cosulich. Música
Baden Powell. Montagem Eduardo Escorel & Gláuber Rocha. Com Rada Rassimov,
Giulio Brogi, Gabriele Tinti, Jean-Pierre Léaud, Reinhard Koldehoff, Aldo
Bixio, Baiack, Hugo Carvana, Rosa Maria Penna, Andre Segolo, Reinhard
Koldehoff.
Um padre
jesuíta (Léaud) a vagar recitando o Evangelho, aprisiona um líder
revolucionário, Pablo (Brogi) e o entrega as forças coloniais, o português
(Carvana), um mercenário alemão (Koldehoff) e um agente americano (Tinti), que
possuem um fascínio hipnótico por uma deidade loura, Marlene (Rassimov). O
líder revolucionário negro Zumbi (Baiack) alerta o chefe da tribo, Xobu (Segolo)
sobre a situação e a necessidade de enfrentamento. O trio que verdadeiramente
manda coloca uma liderança africana fantoche no poder (N’Zonzi), mas Pablo,
liberto por Zumbi, inicia uma guerrilha revolucionária em oposição às forças do
poder, que recentemente massacraram um grupo africano. Enquanto isso o padre
captura Marlene e a crucifica.
Radicalizando
estratégias de mise en scene já antecipadas em Deus e o Diabo na
Terra do Sol e, sobretudo, Terra em Transe, há um crescente
afastamento de encadeamento narrativo e centramento nas situações em um local
específico, no qual o elenco evolui em movimentações e diálogos tampouco naturalistas. Há um fascínio por situações em que apenas os atores se movem, e
a câmera estática permanece, como na provocação de Zumbi para com o líder da
tribo em relação a exploração branca da comunidade africana e seu padrão de vida muito mais confortável e
amparado por saúde. Noutras há uma mescla entre a câmera fixa e os movimentos,
como na que antecede a esta, na qual o padre de Léaud circunda, aproxima-se e
distancia-se de Marlene, arranhando sons do violino que carrega consigo; neste
plano-sequencia há um lindo movimento de Rassimov a simplesmente caminhar,
observado apenas do tronco para cima, de uma maneira que mais parece flutuar ou
se mover em outro suporte que os meros pés. Em comum com o outro, não há
diálogos, passaporte habitual para um modelo de encenação convencional. E tanto
o líder tribal quanto um subordinado, permanecem parados, enquanto apenas Zumbi
se movimenta. Suas roupas ocidentais, terno e calça branca, demonstram sua
inserção nos dois mundos e sua visão panorâmica de aspectos políticos
(exploração dos visitantes ocidentais, necessidade de fim do tribalismo,
corrupção dos sindicatos). Se ainda havia alguma dúvida da personagem se chamar
Marlene em referência à Dietrich, ela canta Lili Marleen, canção gravada
pela estrela alemã e hino informal da soldadesca germânica durante a Segunda
Guerra. E um parente próximo do carnaval tropicalista observado em Terra em Transe é entrevisto no cortejo do presidente-fantoche empossado, sendo
também o homem mais rico e influente da região – a burguesia local já havia
sido discriminado, ao final da sequencia anterior, como um passo rumo à
independência politica formal do país. Em um dos momentos mais interessantes,
há uma série de “apresentações” em um trailer, sejam do trio que encetou o novo
presidente, ocasionalmente interrompidos ou secundarizados por um trio de
saxofonistas africanos, a se movimentarem de forma bastante codificada, de modo
a atravessarem o quadro de um lado a
outro da imagem; ou do próprio recém-empossado presidente. São momentos
relativamente “festivos”, encenados frontalmente à câmera, que traem um que
godardiano, cujo cinema-ensaio trazia rompantes líricos em meio a provocações
mais ascéticas. As convenções são bem outras do realismo. Há um certo momento,
o mercenário acolhe um grupo africano que desce da copa de uma enorme árvore.
Ele os saúda um a um – e a câmera faz questão de observá-los um por um a descer,
como se de um filme do Primeiro Cinema se tratasse; parece, no entanto, haver
implicações éticas nesta escolha, trazendo certa individualidade ao coletivo.
Quando ele se afasta da árvore encontra o grupo formando uma verdadeira parede,
não fila, indiana. E são executados um por um. Sem que esbocem qualquer reação
em relação a buscarem fugir ou revidar, o que amplifica o caráter alegórico de
tudo. Ao final este caráter alegórico se torna ainda mais enfático, com as
disputas pelo poder e cada personagem a representar um interesse/segmento desta
luta. O mercenário canta quase falando, ou fala quase cantando, uma música a
referir a loucura de Abraham Lincoln, Lênin e Hitler. Sobre a figura da deidade
de Marlene, ao mesmo tempo a provocar fascínio e repulsa no padre (que a chama
de “besta da violência”), poder-se-ia imaginar tanto uma figura mitológica, mas
igualmente uma encarnação desta mitologia reciclada para as massas, como
constantemente efetuado pelo cinema – ela é loura e se chama Marlene – e de
forte apelo erótico. Este apelo iria na contramão dos valores religiosos
cristãos, embora o fato dela ser morta crucificada – o que é apenas sugerido
com a primeira estacada sobre a mão – a equipara igualmente ao líder máximo
cristão. Muito conforme a proposição ideológica contrária ao uso do continente
africano como passaporte ao exótico, embora algumas cenas observem belos
cenários ao fundo, como as que envolvem litoral, de maneira alguma há uma
exploração estética-paisagística do Congo, onde foi rodado. |Polfilm/Claude Antoine Films/Mapa Filmes. 99
minutos.![]()

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