Filme do Dia: Entrevista com o Demônio (2023), Cameron Cairnes & Colin Cairnes

 


Entrevista com o Demônio (Late Night with the Devil, Austrália/EUA/Emirados Árabes Unidos, 2023). Direção, Rot. Original e Montagem Cameron Cairnes & Colin Cairnes. Fotografia Matthew Temple. Dir. de arte Otello Stolfo. Figurinos Steph Hooke. Maquiagem e Cabelos Rebecca Buratto, Marie Princi & Russell Sharp. Com David Dastmalchian, Laura Gordon, Ian Bliss, Fayssal Bazzi, Ingrid Torelli, Rhys Auteri, Georgina Haig, Josh Quong Tart, Steve Mouzakis.

Apresentador de um talk-show que, embora conseguindo angariar certa audiência, nunca consegue competir com o de Johnny Carson, Jack Delroy (Dastmalchian) abandona sua função após a morte de sua esposa por câncer. Retorna, porém, um mês após o afastamento, com um programa associado ao Halloween de 1977. Os convidados são o médium Christou (Bazzi), o cético Carmichael Haig (Bliss), a exorcista June (Gordon) com uma garota de intensa paranormalidade, Lilly (Torelli), única sobrevivente da seita satânica de D’Abo (Mouzakis). E o que parecia ser produto do charlatanismo na apresentação de Christou se revela de comoção coletiva, após duas mulheres, mãe e filha, sentirem-se chocadas com o que ele sabia a respeito do filho/irmão suicida. Quando confrontado com a voz da razão do inabalável Haig, Christou vomita sangue no palco e é socorrido, enquanto um intervalo comercial é chamado. A possessão de Lilly, que June prefere não fazer em um ambiente não controlado, foge do controle quando Delroy, com o apoio de seu produtor, entusiasmado com os altos índices de audiência, pressiona-a ao vivo para que o faça. E, para completar a noite de horrores, o próprio Mr. Craig, afirmando conseguir fazer algo tão aparentemente sobrenatural quanto June e Lily, convida o animador da pequena orquestra do programa, o temeroso Gus (Auteri), para um número de hipnotismo no qual vermes começam a aparecer em seu corpo, justamente o que ele mais tem horror, e saem em enorme quantidade de sua barriga exposta, horrorizando todos. Por fim, o próprio Delroy parece possuído por visões, inclusive o da sua mulher em vias de morrer.

Trabalha com muita originalidade clichês oriundos da tradição do gênero, inclusive literários e não limitados ao cinema, mas com já longa estrada de referências cinematográficas, como a venda da alma ao demônio, menos bem sucedida que uma de suas melhores atualizações, a do personagem incrédulo, famoso duplo do espectador a ser vencido a favor do sobrenatural. E tudo isto trabalhado em “tempo real”, o de um programa de auditório, reservatório da cultura televisiva mundial, nos icônicos anos 70 – a referência ligeira à ;violência vinculada à década, inclusive a Manson e sua ‘’família” em um relativamente longo prólogo, tão incomumente longe e guiado por uma voz over documental, quanto também o é, a apresentação dos créditos das empresas produtoras, servindo como moldura para se vender uma história “verdadeiramente filmada”, saindo-se, aliás, bem melhor neste quesito, que uma infeliz referência inexplicavelmente cultuada, A Bruxa de Blair. E também a dinâmica entre o que é espetáculo e o que realidade em uma “apresentação ao vivo”. A lógica de se assistir sem intervalos, mesmo não se vendo no cinema, o que foi o caso, favorece à rendição ao pacto do “tempo real”, aqui mais bem costurado que na produção acima citada, inclusive apresentando o que seriam as cenas de bastidores (em p&b), que ocorreriam durante os intervalos comerciais.  Que o final derrape no gore mais excessivo para uma evidente falta de saída outra, é infelizmente esperado e como um molho americano a empestar parte da refeição, mas nem de longe comprometê-la. Não perde a chance de tampouco atualizar  uma outra referência do gênero, O Exorcista, mais próximo tematicamente que em termos de proposta narrativa extra-diegética. O programa se ancora no visual do de David Letterman, assim como seu apresentador não deixa de lembrar Letterman, embora aparentemente tenha se inspirado em um programa local da TV australiana. O massacre da seita satânica é visivelmente inspirado no episódio dos separatistas de Waco. |IFC Films/Shudder/Image Nation/Future Pictures/Spooky Pictures. 93 minutos.


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