Filme do Dia: Lilies - Les Feluettes (1996), John Greyson
Lilies – Les Feluettes (Canadá,
1996). Direção John Greyson. Rot. Adaptado Michel Marc Bouchard, a partir da
peça Les Feluettes, ou La Répétition d’une Drame Romantique, de
Bouchard. Fotografia Daniel Jobin. Música Mychael Danna. Montagem André
Corriveau. Dir. de arte Sandra Kybartas & Marie-Carole de Beaumont.
Cenografia Mario Hervieux. Figurinos Linda Muir. Maquiagem e Cabelos Stephen
Lynch & Réjean Forget. Com Ian D.
Clark, Marcel Sabourin, Aubert Pallascio, Jason Cadieux, Danny Gilmore, Matthew
Ferguson, Brent Carver, Rémy Girard, Alexander Chapman
Na pequena
Roberval, O bispo Jean Bilodeau (Sabourin) é convidado para uma sessão de
confissão na penitência. Porém, o homem que pretensamente se confessaria com
ele, Simon Doucet (Pallascio), apresenta uma produção teatral, que rememora a
juventude de ambos. Tanto Jean quanto Simon se encantaram com o jovem em uma
dramatização sobre o martírio de São Sebastião numa peça escolar, Vallier
(Gilmore). O santo é vivido por Simon (Cadieux), por quem Vallier abertamente
confessa sua atração. Retraído, Bilodeau (Ferguson) se dá conta de seus desejos
com a encenação, mas é refutado por Simon, que lhe dá um beijo de desprezo. O
beijo foi testemunhado pela mãe do rapaz, que conta tudo ao pai, que o espanca
brutalmente. Quando vai em busca de um médico de Paris, para não ter que contar
o ocorrido a um local, Simon se depara com Lydie-Ann (Chapman), jovem baronesa
que o seduz e com quem noiva. A mãe de Vallier, a Condessa de Tilly (Carver),
incentiva o filho a declarar seu amor por Simon, no dia de seu casamento. A
declaração, feita na frente de todos, deixa Lydie-Ann arrasada, descontando seu
desamparo na Condessa, ao afirmar sobre seu marido viver com outra família em
Paris e que fora ele quem recomendara que ela fosse viver em Roberval, sem
nunca lhe dirigir uma palavra sobre a existência da esposa. Após a festa, Simon
e Vallier se encontram romanticamente pela última vez. A mãe de Vallier os
incentiva a fugirem para Paris. No meio do caminho, deita-se em uma cova e o
filho, mesmo chorando, a estrangula. Bilodeau testemunha a morte, e confessa
seu amor por Simon, que o rejeita novamente. Enfurecido, ateia fogo na moradia
dos dois, salvando apenas Simon das chamas, e o acusando de ter morto
propositalmente Vallier. Após quatro décadas na prisão, Simon reencontra seu
algoz.
Há uma
complexa intersecção de camadas raramente vista em um filme que também poderia
ser incluído no ciclo dos dramas prisionais vinculados ao teatro, servindo
inclusive de mote contra a hipocrisia cristã em um país cujo Quebec era até
poucas décadas antes de forte influência católica nos rumos da sociedade e da
política. Há possibilidade de associações amplas. Se o teatro enquanto veículo
para a vingança, já foi utilizado de maneira literal algumas vezes (As 7 Máscaras da Morte sendo referência óbvia), bem mais complexo é se buscar,
através da encenação do passado de um bispo de forte influência na hierarquia
eclesiástica, rememorar seu amor homossexual. Inicialmente lidando com o
próprio espaço do teatro como fonte e o bispo a assistir o espetáculo
improvisado de seu confessionário – ao invés de ouvir confissões de almas
atormentadas, agora é seu passado que passará literalmente diante de si; e,
depois, mesmo inspirado em uma peça, fazendo uso dos recursos naturalistas do
cinema para continuar com o drama. A transição ao modo “naturalista” do fazer
cinematográfico pediria igualmente uma desnecessidade de personagens femininas
vividas por atores em continuidade com à prisão/teatro. Mas é um mero detalhe
em uma rara investigação envolvendo homossexualidade que se vai além dos dramas
individuais encenados ou de um repertório demasiado conhecido ao longo
sobretudo das últimas décadas (amores inconciliáveis, descobrimento de si,
afirmação identitária, etc.). E, como imaginado, há retornos esporádicos ao
“modo teatro”, e alguns deles, inclusive, rendem algumas das melhores cenas.
Como a dos dois amantes na banheira, e depois sob o testemunho sarcástico da
mãe de um deles. isso dito, há uma
distância entre a ideia e o resultado, do mesmo modo que quando se abraça o
naturalismo da “lanterna mágica” se recua rumo a uma maior ortodoxia, e das
situações que passam a ser desenvolvidas, mesmo contando com atualizações a
dialogarem fortemente com o momento no qual foi produzido, como uma condessa
vivida por um ator negro e com cada vez menos intervenções dos narradores
internos. Nem tampouco seu enredo é evidente de imediato. Nada disso, no
entanto, apaga uma letra sequer do escrito antes. Enquanto drama cênico,
toca-se de maneira original em várias tradições teatrais, da obra de arte
enquanto possibilidade de revelação da hipocrisia – e esta engenhosamente
associada a uma sexualidade não vivida a contento – a utilização de atores
vivendo mulheres, passando pelo triângulo amoroso, cujo elemento descartado do
vértice se tornará uma figura de
respeito e poder, em uma estratégia regressiva a desmascarar todos os véus a
encobrirem os verdadeiros sentimentos; e, nesse sentido, organicamente
melodramática, além de histórica, pois o tempo presente da peça é 1952, o que
remete ao seu início na segunda década do século XX. Excelente uso de cantos sacros, a efetuarem
uma leitura discretamente pós-modernista quando comparada, por exemplo, a de
seu contemporâneo de cinema queer Derek Jarman. Algumas linhas foram
extraídas do martírio de São Sebastião, como alude os créditos finais, também
revisitado por Jarman (Sebastiane) e aludido aqui sobretudo na peça
escolar na qual os dois amantes se engraçam um do outro. O espírito de Genet
também parece invocado nesta aproximação de uma revelação a se dar na prisão, e
mais interessante que a média dos filmes que mesclam drama e prisão (a exemplo
do estadunidense Sing Sing).|Tryptich Media/Galafilm Prod. 91 minutos.![]()

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