Filme do Dia: O Destino de um Homem (1959), Sergei Bondarchuk

 


O Destino de um Homem (Sudba Cheloveka, URSS, 1959). Direção Sergei Bondarchuk. Rot. Adaptado Yuriy Lukin & Fyodor Shakmagonov, a partir de um conto de  Mikhail Sholokov Fotografia Vladimir Monakhov. Música Venyamin Basner. Montagem Tatyana Likhachyova. Dir. de arte Ippolit Novoderyozkhin & Sergei Voronkov. Figurinos O. Vereyski. Com Sergei Bondarchuk, Pavel Boriskin, Zinaida Kirienko, Pavel Volkov, Yuri Averin, Konstantin Alekseev, Pavel Vinnikov, Evgeniy Teterin.

1942. O motorista Andrei Sokolov (Bondarchuk) é tornado prisioneiro dos alemães. Passando por situações extremamente adversas no campo de prisioneiros onde se encontra, Sokolov escapa de ser executado por um oficial nazista e, posteriormente, consegue dominar outro oficial para quem servia como motorista e fugir para uma região dominada pelo exército soviético, sendo condecorado com honras militares. Porém, o retorno ao seu vilarejo também é o momento de descoberta que toda sua família, com exceção do filho, alistado na guerra, morreu em um bombardeio. E virá a descobrir não muito tempo depois que seu filho morreu em combate. Para aplacar seu desespero, Andrei adota uma criança órfã de guerra que vaga por onde ele trabalha como caminhoneiro, Vânia (Boriskin).

De qualidade pictórica (destacada ainda mais pela restauração digital) impressionante, com a iluminação e fotografia em preto & branco praticamente a transformarem os maltrapilhos soldados soviéticos rendidos pelos nazistas em imagens incomuns em uma catedral semiarruinada. Nem toda a beleza de suas imagens ou perícia técnica, demonstrada em cenas como a de um giro de câmera a retornar à imagem inicial sem ser observado o corte encobre a moralidade sacrossanta a ditar o tom de tudo (ou quase). Assim, mesmo se tirando partido de forma impactante de uma verticalidade íngreme em mais de uma cena, notadamente na descida em fuga de Andrei de um barranco, em contraponto se tem cenas não menos do que constrangedoras entre Andrei e um oficial nazi. E não é surpresa se ter Andrei vivido por ninguém menos que o também ator, aliás muito mais frequentemente ator, Bondarchuk. E todos se tornam paralisados pela conduta moral impecável de Andrei, mesmerizados e invejosos da mesma, em verdadeiro tableaux vivant. E, como bom comunista, dividirá o pão e o patê presenteados pelo nazista com todos os acomodados em seu barracão. Esta exemplaridade encontra-se na produção mais saliente da época pós ou stalinista (em A História de um Homem de Verdade, Bondarchuk tem participação não creditada).   As breves falas em alemão não são traduzidas. Há até espaço para um oficial nazista bonachão e algo carismático, e que se tornará vítima de Andrei. Logicamente já esperamos pela notícia da morte de seu filho na guerra, pois ninguém passa incólume a um título (ao menos, o brasileiro) como este. E a alegria incontrolável da multidão, a  celebrar o final e vitória da guerra, choca-se com a tristeza de um pai enlutado. Não se pode deixar de comentar a presença de uma mulher-mãe, na figura de alguém a se preocupar na acomodação do filho e também do marido nas camas, com atenção talvez ainda maior para o adulto. Ninguém teria tanta ascendência sobre narrativas envolvendo vitimização e sofrimento quanto a União Soviética, dado o número de mortes no conflito, ainda não tendo sido reconhecida enquanto tal em termos de Ocidente (algo do qual Oliver Stone faz questão de ressaltar na série A História Não Contada dos Estados Unidos - A Segunda Guerra Mundial). Klimov, inclusive, dentre outros – o próprio Bondarchuk com seu Eles Lutaram pela Pátria, de meados dos anos 70 – atualizará tal sofrimento, e também o nível de realismo descritivo do mesmo, com seu Vá e Veja. Ao contrário da ação multi-fragmentada de um marinheiro a quebrar o prato como revolta da situação  de si e dos seus no célebre  O Encouraçado Potemkin, agora se tem um Andrei despedaçando um disco alemão, trazendo consigo a canção e as lembranças de todo o sofrimento vivido sob o jugo dos mesmos.  Estreia de Bondarchuk na direção. |Mosfilm. 103 minutos.

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