Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#150: El Vuelco del Cangrejo

 


EL VUELCO DEL CANGREJO (Colômbia/França, 2009). Um dos filmes mais originais realizados recentemente na América do Sul, El Vuelco del Cangrejo, dirigido por Oscar Ruiz Navia, recebeu sua estreia internacional no Festival de Toronto; venceu prêmios em uma série de festivais, incluindo o Festival Internacional del Nuevo Cine Latino (Havana) -  Prêmio Especial do Júri Opera Prima (Primeira Obra) - e Berlim (2010) - o prêmio FIPRESCI no fórum; e foi a submissão (não bem sucedida) da Colômbia ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Também foi lançado nos Estados Unidos, México, Canadá, e França, impressionante conquista para um filme tão "modesto". Ruiz Navia, que estudou cinema na Escola Nacional de Cinema e Televisão Colombiana, havia realizado seis curtas, antes de embarcar em seu primeiro longa, incluindo En la Barra Hay un Cerebro (2006), que havia sido filmado em uma pequena cidade da Costa do Pacífico, La Barra. O diretor havia visitado lá em 2002, e ficou impressionado pelo isolamento e força da comunidade afro-colombiana, que resistia há muito a economia do turismo. 

El Vuelco inicialmente segue um jovem branco, Daniel (Rodrigo Vélez), ao longo de uma caminhada na floresta. Quando ele chega à costa e se depara com moradias, ficamos a saber que está porcurando escapar para algum lugar de barco. Fica sabendo que não há barcos disponíveis - quase todos os homens estão no mar - mas ele é instado a esperar. Não fica claro se possui muito dinheiro com ele, mas Cerebro (Arnobio Salazar Rivas) lhe oferece um lugar barato para dormir e ter sua comida cozinhada por Jazmin (Karent Hinestroza). Em uma reversão do desequilíbrio de poder entre brancos e negros, Daniel executa tarefas, incluindo coletar lixo na praia, em troca por seu alojamento e comida. Faz amizade com a filha de Jazmin, Lucia (Yisela Álvarez), que mostra a ele como aprisiona caranguejos. Todos os personagens locais são interpretados por atores afro-colombianos não-profissionais, e somente Daniel e o outro forasteiro, El Paisa (o "homem branco", Jaime Andres Castaño) são vividos por profissionais. El Paisa é um invasor repulsivo que comanda um "disco-hotel", explodindo música tecno-dance todo o tempo, enfurecendo os locais (e, por extensão, o público do filme). Os moradores de La Barra eventualmente se vingam pondo a baixo seu curral de peixes.

Apesar de muito amistosos, os personagens colombianos são apresentados como extremamente orgulhosos, e claramente compreendem o valor do dinheiro. El Vuelco dá uma esperança que pessoas como elas sejam capazes, no futuro, de controlar seu próprio destino, seja resistindo ao turismo e a invasão do mundo exterior ou colhendo os benefícios destas intrusões. Nunca sabemos de onde Daniel verdadeiramente é, embora pergunte por um amigo ator, com quem deveria se encontrar lá, e não sabemos tampouco para onde pretende escapar. Mas o filme muda a nossa atenção dele, para se interessar pelo povo da costa pacífica da Colômbia. El Vuelco claramente mescla os modos documental e ficcional, através do uso de pessoas comuns, atuando em papéis principais e através de filmagens em locações, que nunca são glamurosas - por exemplo, a areia da terra é cinza, possivelmente solo vulcânico - e sentimeos que, por vezes, recebemos um retrato mais autenticamente etnográfico de uma comunidade de pessoas, que seria possível através das convenções do filme documental. Ruiz Navia foi um dos produtores do primeiro longa de William Vega, La Sirga, que foi exibido em Cannes em 2012, e seu curta, Solecito, foi selecionado para a Quinzaine des Cinéastes (Quinzena dos Realizadores), de Cannes, em 2013. Ver também CINEMA ETNOGRÁFICO.

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