Filme do Dia: O Batom (1960), Damiano Damiani
O Batom (Il
Rossetto, Itália/França, 1960). Direção Damiano Damiani. Rot. Original
Cesare Zavattini & Damiano Damiani, a partir de argumento de Damiani.
Fotografia Pier Ludovico Pavoni. Música Giovanni Fusco. Montagem Fernando
Cherchio. Dir. de arte Sergio Baldacchini. Cenografia Giuseppe Ranieri.
Maquiagem e Cabelos Franco Palombi & Nicla Palombi. Com Pierri Brice, Laura Vivaldi, Pietro Germi, Giorgia Moll,
Bella Darvi, Ivano Staccioli, Nino
Marchetti, Renato Mambor.
Silvana (Vivaldi) é uma garota de 13 anos, atraída e
romanticamente enlevada por Gino (Brice), homem de modesta situação econômica e
noivo da grã-fina Lorella (Moll). Um crime é praticado no condomínio de Gino. E
Silvana, interessado em cada passo do rapaz, foi a única a testemunhar sua
saída da casa de uma prostituta, que posteriormente é encontrada morta.
Aproveitando-se do interesse da garota por ele, Gino a manipula para não contar
nada a ninguém. Porém, em um episódio que a leva para um arrabalde deserto,
suas atitudes violentas quando Silvana descobre as alianças de seu noivado, a
fazem fugir. Temeroso da possibilidade dela contar tudo à Polícia, ele próprio
se adianta, afirmando que uma garota poderia inventar histórias a respeito
dele, quando vem a ser interrogado, o que imediatamente desperta a atenção dos
investigadores. O Comissário Fiorezzi (Germi) passa a desacreditar do
depoimento da jovem, quando é descoberto um batom entre suas coisas. Ele a
trata cruelmente, deixando-a desesperada, e solta Gino. Porém, tempos depois,
após uma tentativa frustrada de suicídio por parte da garota, e novas
evidências emergirem, Fiorezzi vai com Gino até a casa de sua noiva, Lorella
(Moll), e o desmascara diante dela, na véspera de seu casamento.
Era tempo do milagre econômico. E de uma mundanidade
que começava a por abaixo à rígida moral religiosa. Mas a presença da igreja de
uma maneira ou de outra atravessa boa parte destas produções. Das mais icônicas
(como A Doce Vida) a outras menos lembradas como esta, onde um grupo de
religiosos de tenra idade (quase uma reprodução do acaso em cena comentada por
Bazin de Ladrões de Bicicleta), guiados por um padre, atravessa o campo.
Ao contrário do filme de De Sica, no entanto, sintomaticamente eles salvam uma
vida ou pelo menos ferimentos da garota que estava a ponto de ter uma garrafa
cortando seu corpo. Porém, é muito mais insistente neste filme. É sobre seu
espectro moral que a jovem vem a ser espezinhada pelo investigador (vivido por
um diretor de carreira já mais consolidada que Damiani, Pietro Germi) e os
jornalistas. E após findo o “escândalo”, internada em um colégio católico para
meninas. Os jovens galãs podem vir emprestados da França (Alain Delon em O Eclipse, Brice neste), por conta de numerosa quantidade de co-produções ou
serem prata da casa (Maurizio Arena, Gabrielle Ferzetti, Nino Castelnuovo,
Gianni Morandi). A polícia italiana comenta sobre os possíveis suspeitos sem o
menor pudor na frente de um recém-interrogado, o próprio Gino e quanto este se
trai, comentando sobre uma garota que o teria pretensamente visto no
apartamento da morta, interroga-a diante de Gino. Tampouco os olhares, trocados
entre os investigadores, são exatamente
exercícios de sutileza dramática. Os interrogatórios parecem mais próximos de
uma telenovela ou mesmo fotonovela que da realidade ou de sua tradução pelo
cinema; quando se compara o desmascaramento de Gino, ao qual a música de Fusco
poderá ser uma expressão simbólica, percebe-se a fraqueza em relação a um noir
hollywoodiano de muitos anos antes, Angústia. As acusações, suspeitas e
humilhações são feitas diante de todos os diretamente interessados. O objeto de controvérsia, que provoca uma
virada nas investigações, soa risível aos dias de hoje, enquanto testemunho de
uma sociedade extremamente misógina. O batom é arrancado das coisas da garota,
como se a comprovação de um crime ou a conspurcação de sua honra. E, pior que
isso, esfregado em seu rosto. A jovem Laura Vivaldi é um dos trunfos do filme.
Seu corpo miúdo e trabalho de composição faz toda a experiência de sua
personagem se tornar ainda mais opressiva e cruel – crueldade a se espalhar
para além da ficção do filme, ao coloca-la como quarto crédito e depois de uma
beldade e aspirante a sex Symbol (além de casar com com o personagem que a sua
amava), de muito menor importância à narrativa. Tornar-se-ia de longe mais
interessante se enveredasse pelo modo como Silvana é tratada na situação,
enquanto estudo de caso social, que dando prioridade ao caso do assassinato e
sua resolução. |CFPC/Europa Cinematografica/Explorer Film’58 para Movietime. 93
minutos.![]()

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